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O Poeta João Ribeiro

Na vetusta cidade de Laranjeiras, em plaga sergipense situada à margem do flúmen Cotinguiba, que se derrama  no rio Sergipe e esse, após curta distância,  na imensidão  atlântica, nasceu há cento e cinqüenta anos João Baptista Ribeiro de Andrade Fernandes, que iria falecer no Rio de Janeiro em 1934.

A povoação setecentista – Laranjeiras – desenvolveu-se e no século seguinte, precisamente naquele ano de 1860, recebeu a visita do Imperador Pedro II e da Imperatriz Tereza Cristina.

João Ribeiro foi filólogo, historiador, dicionarista, poliglota, professor, jornalista, tradutor, crítico literário, folclorista. E poeta também. Em posfácio à edição de 1902 [Rio – Jacintho Ribeiro Santos – Editor] da sua coletânea de poesias, de que me valho, registrara:

Em 1883 e 1884 publiquei os dous opúsculos Dias de Sol e Avena e Cythara; destes provém a edição feita mais tarde dos meus Versos, 1890, que foi a reimpressão dos dous livrinhos antecedentes. Agora, pois, o presente livro representa a terceira edição dos mesmos versos, aumentados, como das outras vezes, de composições inéditas.

Em 1898 ao assumir na Academia Brasileira de Letras a Cadeira 31, outrora ocupada pelo poeta Luís Guimarães Junior, em sua fala de estréia o laranjeirense observou:

A grandeza e a sublimidade da poesia está em que ela repele o concurso árido e esterilizante das coisas; ela é, toda ela, sonho e emoção – emoção e sonho que para os outros desmaiam, esvaem-se, ao primeiro sopro da vida, mas que para o poeta, na agonia do poeta, por um mistério veemente e súbito, petrificam-se tomadas pela surpresa tempestuosa do ritmo que age como um estranho cataclismo. 

José Veríssimo, que o recebeu na ABL, exemplificou sua poética com peça tirada ao Museon, grupo de sonetos que vieram alguns anos antes dos de Heredia, e integram o livro de 1890. Aqui a reproduzo, feita a necessária atualização ortográfica:

Do mar e das espumas tu nasceste,
Ó forma ideal de todas as belezas,
Inda teu corpo, mal vestindo-o, veste
Um colar de marítimas turquesas. 

Milhares d’anos há que apareceste
Outros milhares d’almas sempre acesas  
No teu amor, lá vão seguindo presas
Da tua garra olímpica e celeste 

Beijo-te a boca e sigo embevecido
Ondas sobre ondas, pelo mar afora,
Louco, arrastado qual os mais têm sido, 

Ora te vendo as formas nuas, ora 
Toda nua a sentir-te em meu ouvido
Do eterno som dos beijos meus sonora.  

Em Páginas Escolhidas [H. Garnier, Livreiro – Editor, Tomo Segundo, 1906] João Ribeiro inseriu sonetos seus, dos quais um, o acima transcrito, sob o título de Venus; e outro, denominado Monge, de 1888, cujos decassílabos aqui repito, com observância de mudanças versíficas encontradas na mencionada antologia:

É forçoso que por um louco tomem
Quem de perfeito juízo se mostrava?
Louco, dizíeis vós! mas onde estava
A apregoada loucura daquele homem? 

Quem pode ver as dores que se somem
Dentro no peito e ver a ignota lava?

Loucos sois vós que as pústulas consomem,
E tendes a alma das paixões escrava. 

Louco o dizeis, porque deixara o mundo
Pelo abismo do claustro hórrido e fundo!
Insensatos, sabei! para a alegria, 

É talvez pouca luz a luz do dia,
Mas a quem fere do infortúnio o açoite
Essa noite de claustro é pouca noite. 

Em 1929 a Pequena edição de Sonetos Brasileiros (F. Briguiet & Cia. – Editores – Rio de Janeiro), organizada por Laudelino Freire, foi reeditada; e dela extraio esta composição de João Ribeiro, que se encontrava no Museon e em Páginas Escolhidas, nesse livro denominada A ninfa:

Na floresta os crepúsculos eu passo
A flor colhendo e o saboroso fruto.
Ouço um rumor, e cauteloso, astuto
Apalpo as folhas estendendo os braços. 

Fauno talvez! E horripilado escuto…
Eis quando surge sob um sol escasso,
Não, qual imaginara, o deus hirsuto,
Mas uma ninfa de ligeiro passo 

Ah! Não fosse eu mortal e fosse dado
Ao homem ser dos deuses o pecado!
Se naquele momento um deus eu fosse, 

Ao vento a flor e o fruto desprezando,
Minha fora esta deusa, que é, passando,
Mais que a flor, mais que o fruto, bela e doce.

Agrippino Grieco (Ah! O mestre Agrippino Grieco) em Evolução da Poesia Brasileira (Rio de Janeiro:, Livraria José Olympio Editora, 3ª ed., 1947 ) após perfilar o crítico literário João Ribeiro, avançou:

Quase chegando a essa extrema velhice (…) vai o Sr. João Ribeiro reencontrando em si mesmo o excelente poeta dos tempos de rapaz, o poeta que fez tão lindas coisas rítmicas no tempo em que tantos se deixavam impressionar pela eteromania romântica de Vitoriano Palhares ou pelo bromureto poético de Teixeira de Melo.

Fontes de Alencar

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