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Laudelino Freire

Rui Barbosa, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, ocupou ali a Cátedra de que patrono Evaristo da Veiga. Sucedeu Laudelino Freire a Rui Barbosa no ano de 1924. Foi o segundo ocupante da Cadeira nº 10.

Aloísio de Castro o recebeu na Casa de Machado de Assis. No intróito da fala de saudação relembrou o que Platão insculpira no friso da sua Academia:

“Aqui não entre quem não for geômetra.”

Logo acresceu o saudador:

Ora, muito bem podeis aqui entrar Sr. Laudelino Freire: sois geômetra.

E mais:

Tendo professado essa disciplina no Colégio Militar, mostrais que o vosso talento deitou raízes na especulação matemática, para luzir nas múltiplas formas da cultura superior.

A respeito do seu insigne predecessor o filho da cidade de Lagarto, além do declamado na oração acadêmica inaugurativa, elaborou vários estudos: Homem prodígio, O Brasil em Haia, Magias oratórias; Rui, Pisa e Lessa; Lampejos e clarões;  Peculiaridades  de mestre, Adjetivação abundante, Palavras novas, Águia e aquilucho, todos eles ajuntados  em Rui– subsídios para o estudo de sua vida e obra, publicado pela Casa de Rui Barbosa em 1958.

O então novel acadêmico nascera no ano de 1873, e tendo iniciado os preparatórios no Liceu Laranjeirense, situado na velha urbe de Laranjeiras, também, como aqueloutra, da antiga Província de Sergipe, os concluiu na Escola Militar do Rio de Janeiro, onde fez todos os estudos de matemáticas superiores, tudo consoante registrado por Armindo Guaraná em seu Dicionário Bio-bibliográfico Sergipano, publicado postumamente em 1925, às expensas do Governo sergipense.

Faleceu Laudelino Freire no Rio de Janeiro em 1937. Aquela Cadeira nº 10 passou a ser ocupada por Osvaldo Orico que, quando da louvação academial, fez minudente histórico da vida daquele a quem sucedia, inclusive traçando, a respeito da luta em defesa do vernáculo, paralelo entre ele e o lusitano J. Leite Vasconcelos.

Combateu com afinco a galiciparlice que na primeira metade do século passado vicejava entre letrados brasileiros, cruzada que motivou de Aloísio de Castro a seguinte boutade na mencionada oração

Ganhaste horror ao galicismo e compuseste um substancioso Vocabulário, para extinguir a praga de galiparlas e preservar a língua contra a tacha  afrancesada. Passaste então a ser com isso um homem perigoso, e crede não é sem temor que me desobrigo desta oração, sentindo no ar a palmatória de cinco furos com que me chamareis a bolos por qualquer francesia que me escape. 

A propósito desse galicismar o sapiente João Ribeiro observou com  ciência e graça:

O francês por garbo ou elegância inventa uma palavra inglesa, por exemplo, o footing, que os próprios ingleses desconhecem; e nós, logo, inconsideradamente, o adotamos…

Chegamos até ao cúmulo e à ridiculez de adotarmos palavras tupis… francesas. Um escritor negligente leu mal a palavra “nembi” e dela fez a famosa “inúbia”, usada e repetida pelos nossos poetas indianistas.

O acervo biblíaco de Laudelino é copioso e diverso. Sua atividade intelectual, fecundante.

Obras didáticas e de história estão entre as laudelinianas. E também de antologia. Nesse campo, de 1904 é a seleta Sonetos Brasileiros (Rio: M. Orosco & Cia), que  em  segunda edição (Rio: F. Briguiet & Cia) continha 500 produções. Dessa foi tirada a Pequena Edição dos Sonetos Brasileiros, de 1905, com 105 composições, e em 1929 foi a obra novamente editada contendo criações de 122 poetas.

Escritos de jornais e outros esparsos de Laudelino Freire foram compaginados, de 1925 a 1930, em onze volumes seriados sob o título de Notas e Perfis.

O lagartense que tanto se empenhava nas lides intelectuais lá na Capital brasiliana de outrora fundou em 1919 a Revista de Língua Portuguesa e a dirigiu. No seu primeiro número, em Intenções, texto de abertura, da lavra do  criador e diretor do veículo de idéias, constava:

Uma nação que se vê invadida de estranhos idiomas e não sabe resguardar o seu materno do contato absorvente – ou é que corroída já está pelo vírus da degeneração, ou é que lhe não perpassa o organismo o espírito de crença firme no futuro.

Entre os colaboradores da edição primária do periódico referido, Ramiz Galvão – com o trabalho O Poeta Fagundes Varela; e mais João Ribeiro, o luso J. Leite de Vasconcelos, Mário Barreto e o próprio fundador e dirigente.

O Museu do Escritor, instituído pela Associação Nacional de Escritores e recentemente inaugurado, tem no seu cabedal exemplar de Fac-simile da 2ª Ed. (1813) do Dicionário de Língua Portuguesa por Antonio de Moraes Silva (Fotografada por Revista de Língua Portuguesa, sob a direção de Laudelino Freire – Rio: Oficinas de S.A. Litho-Tipografia Fluminense,1922 – Edição Comemorativa do Primeiro Centenário da Independência do Brasil).

A respeito dessa obra o erudito João Ribeiro, que considerava Morais o maior dos nossos lexicógrafos, tanto de Portugal como do Brasil, em Crítica – vol. V – Filólogos ( Rio: ABL, 1961) proclamou:

Não foi somente um preito de justiça ao nosso glorioso antepassado – foi pari passu a restituição de uma obra-prima que corria afeada e quase destruída por sucessivas edições ineptas que haviam adulterado aquele precioso monumento da erudição nacional. Quem de entre nós, sem medir sacrifícios grandes, se abalaria a tamanha empresa?

E ei-la agora abençoada pelo êxito absoluto.

Na esfera editorial o ocupante da Cadeira 10 ideou a Estante Clássica, com quinze títulos a começar de Rui Barbosa e findando em Rocha Pita.

Há mais, leitor: Laudelino Freire deixou aos utentes do idioma o Grande e Novíssimo Dicionário da Língua Portuguesa que A Noite. S. A. – do Rio de Janeiro publicou, em cinco volumes, de  1939 a 1940. A Biblioteca da ANE  guarda os respectivos exemplares.

Fontes de Alencar

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