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O jovem e o poema

Joaquim Nabuco – Joaquim Aurélio Barreto Nabuco de Araujo – fez-se figura estelante da vida pública nacional como político, orador e memorável estilista; e ainda publicou versos.

Graça Aranha em Machado de Assis e Joaquim Nabuco – comentários e notas à correspondência entre estes dous escritores, de 1923, editado por Monteiro Lobato & Cia (Brasiliana Digital) referindo–se ao segundo disse:

A campanha pela Abolição o havia revelado ao Brasil e a humanidade, sensível às cousas brasileiras. O heroísmo da sua mocidade tinha se cumprido. Nabuco renunciara ao domínio, à posição, ao repouso, rompera com a classe dos senhores, a qual pertencia, e tornara-se o apóstolo da libertação dos escravos.

De sua produção versífica destaco nesta ocasião Amour et Dieu – Paris, Imprimerie de J. Claye, 1874 (Brasiliana Digital), de cuja peça derradeira transcrevo este quarteto:

Je parle une langue étrangère
Dans mes vers; je ne sais pourquoi.
Peut-être pour dire à ma mère ,
Le poete, ce n’est pás moi.

Dez anos antes Nabuco de Araujo, o pai, estimulava-o a versejar. Angela Alonso em Joaquim Nabuco: os salões e as ruas (São Paulo: Companhia das Letras, 2007) especifica que ele promovera edição luxuosa, no ano de 1864, de um poema em que o filho o homenageava – O Gigante da Polônia.

A criação nabuqueana chegara às mãos de Machado de Assis e o então folhetinista do Diário do Rio de Janeiro, na edição de 31-01-1865, a propósito grafou:

…Já que falo em poetas escreverei aqui o nome de um jovem estreante da poesia, a quem não falta vocação, nem espontaneidade, mas que deve curar de aperfeiçoar-se pelo estudo. É o Sr. Joaquim Nabuco. Tem 15 anos apenas. Os seus versos não são de certo perfeitos: o jovem poeta balbucia apenas; falta-lhe compulsar os modelos, estudar a língua, ultimar a arte; mas se lhe faltam os requisitos que só o estudo pode dar, nem por isso se lhe desconhece desde já uma tendência  pronunciada e uma imaginação viçosa. Tem o direito de contar com o futuro. (GA, op. cit.).  

E o adolescente escreveu ao periodista:

Não sou poeta; as minhas toscas composições, escritas nas minhas horas vagas, ainda não pretendem a tanto; o título pomposo de – poeta, – que por extrema bondade, e complacência, dignou-se-me aplicar, poderia esmagando a minha nula valia, encher-me de um orgulho  sem fundamento, que me elevasse acima do que eu realmente sou, se porventura não tivesse a indestrutível convicção de que ele verdadeiramente me não pertence, e de que me foi aplicado  por um poeta, que, talvez por simpatia ou por qualquer motivo, desejando estender-me a sua mão de apoio e de admiração, me deu títulos superiores às qualidades que realmente eu possuo.  

Escrevo versos, é certo; porém estes versos, sem cadência e sem harmonia, não podem elevar o seu autor à altura de poeta,…

Não obstante, decorrida uma década Nabuco publicaria na capital da França o poemário Amour et Dieu.

Findava o século XIX quando apareceu Minha Formação de Joaquim Nabuco. Gilberto Freire preludiou a 2ª edição dessa autobiografia (Brasília, Senado Federal, 2001). Do mencionado lavor nabuquino colho:

Recordo-me de que nesse tempo (aos quinze e dezesseis anos…) tive uma fascinação por Pedro Luís, cuja ode à Polônia, Os Voluntários da Morte, eu sabia de cor.

Em setembro de 1939 a Alemanha invadira a Polônia. A 6 do mês seguinte completo  era o domínio nazista acolá. Em maio de 1942, Tadeu Skowronski, no proêmio de Páginas Brasileiras sobre a Polônia, obra por ele organizada e editada pela Freitas Bastos, do Rio de Janeiro, vozeou:

A Polônia sucumbiu, mas não foi vencida… Li o poeta de “Terribilis Dea” – Pedro Luiz Pereira de Souza, as estrofes do jovem Joaquim Nabuco, as poesias inflamadas de Castro Alves, reli as palavras proféticas de Rui Barbosa… 

Da seleta do Ministro polônio extraio o poema do jovem:

O GIGANTE DA POLÔNIA
(Trechos de uma ode)
…………………………………………………………………

Anjo tutelar, propício nume
Do Polaco terreno, ufano logra
Ovações mil a mil da pátria cara!
VÍSTULA fero, da Polônia o guarda! 
………………………………………………………………….

O Vistula espumoso é incentivo
Do brio, do denodo e da braveza,
Que ao Polaco assinala um posto d’honra
Marcando dos heróis o lugar primo!
…………………………………………………………………..

Sentinela fiel, guarda em vigília,
Do morticínio atroz ali sangrento
Ele foi testemunha. Enraivecido,
Suas águas com sangue misturadas.
Para os mares do norte arroja afoito! …
Elas são, bem que tácito, um protesto,
Que na mente dos povos alto clama.
Para os bravos Polacos d’hoje, e d’ontem,
Para os da fé valentes defensores,
Vingança!

Hidra que os Russos assoberba.
Na história a Polônia se apresenta;
Não lhe paga o presente o seu passado,
Quando a orbe do Cossaco ameaçado
Com o sangue dos seus salvou a custo,
Seus atos de bravura a mundo espantam,
Seus feitos de heroísmo ele contempla,
Seu presente brilhante o maravilha! …

Um bárbaro colosso transportado
De inóspitas paragens para a Europa,
Chamar-se de Europeu indigno povo! …
Inerte e rude massa sem cultivo,
Sem crença, sem amor, letras, nem artes,
Eis ao que se resume o grande império,
Que o oriente da Europa abrange largo!
Prolongada extensão possui ele hoje;
Despótico autocrata as leis lhe dita;
Seu exército imenso é de carrascos…
…………………………………………………………………………..

Entretanto os polacos não trepidam
Em, nas lanças agudas dos inimigos.
Morte de bravos ir buscar, pujantes,
Não lhes assusta o cadafalso erguido,
Nem da morte o cortejo os intimida.
As geladas campinas da Sibéria,
Onde mil infelizes se lamentam,
Onde chora a mulher seu caro esposo,
Onde o filho pranteia o pai ausente;
Os pesados grilhões, fortes cadeias,
De seus cansados membros – opressores:
A vista aterradora dos suplícios,
E a presença constante dos algozes,
O  alento desses bravos não comovem,
Nem no peito tão pouco a chama abafam
Nem a voz da consciência nalma calam!
Em sagrado holocausto, n’ara pátria,
Cada dia mais vítimas se oferecem! …
Seu sangue fertiliza o solo bravo …
Novos, brotam do chão guerreiros fortes …
Pela pátria se finam – ai vêm novos.
A Polônia de Antéus é terra fértil! …
Um constante lidar entre dois povos!
Dois povos, dois anelos mutuados!
Este, a morte, o horror, a tirania;
Aquele, a religião, a pátria e a vida!
Um, combate para o jugo impor, odioso,
Outro, para dele libertar a pátria;
Um, pretende apertar grilhões de escravo,
Outro, o elo romper, que o prende à Russia!
Por ser tirano aquele, fere e mata;
Este, ali pela pátria morde o solo!
A morte desses bravos não choremos.
Porque, noutra vida, um Deus existe,
Que sabe premiar os grandes feitos …
Um Deus que tem para os bons a Eternidade,
Um Deus que tem para os maus torturas grandes.

Fontes de Alencar

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