Discursos e outras falas

Homenagem ao Ministro Paulo Costa Leite

Sr. Presidente, antes de V. Exa. encerrar a sessão, por força das circunstâncias do dia, sinto-me com a missão de dizer a V. Exa o nosso muito obrigado. Assim, o faço reconhecendo na figura de V. Exa. o Amigo, o Colega e o Presidente – condutor da Corte. V. Exa. guiou a Corte com muita sabedoria e, ao mesmo tempo, com a calma necessária, como deveria fazê-lo, realmente.

V. Exa. vem de longe, lá do continente de São Pedro do Rio Grande, mas a V. Exa, não se aplicam os versos de Paulo Bonfim, o Poeta Magnífico, do soneto “Transfiguração”:

“Venho de longe a contornar a esmo,
O cabo das tormentas de mim mesmo.”

Esses versos não se lhe aplicam porque V. Exa.  é um vitorioso. Naturalmente V. Exa. teve procelas e enfrentou tormentas, mas conquistou seu espaço, chegou a esta Corte e a presidiu com maestria, regendo este coral de brasileiros que aqui ficamos a fazer a prestação jurisdicional que a Constituição nos entregou.

Não é de agora que se diz que cada um de nós traz consigo uma carga telúrica no sentido de que o meio ambiente, a terra em que nascemos, é um forte contributo na formação do caráter de cada um de nós. Chegou-se até a dizer, outrora, como fez Horácio, que o céu de Atenas e Esparta era a diferença entre as duas. Disse mesmo, e verdade é, que a terra de nascimento marca o diferencial entre os homens.

Na Idade Média, Ibn Khaldun, ao fazer a história dos povos árabes, berberes e persas, escreveu três volumes sob a denominação de “Prolegômena”. Nesses seus escritos, ele cuidava da terra, tal a influência da vida ambiente nos seres humanos.

O nosso Euclides da Cunha, em “Os Sertões”, antes de retratar a tragédia de Canudos, aquela reciprocação de equívocos que ocorreu nos começos da República, escreveu a primeira parte do seu livro sobre a terra. Na velha Europa, Hippolyte Tame aplicou essa teoria à literatura. O nosso Sílvio Romero, na sua “História da Literatura Brasileira”, também o fez. É verdade, porém, que, andando o tempo, chegou-se à conclusão de que a terra não é fator determinante, porque se faz inescondível o homem como ser. É a conjugação desses fatores – a terra e o indivíduo –, Excelência, que faz a presença do Homem.

Ora, por tudo isso, a sua presença é marcante no Judiciário. E há na sua maneira de ser, na sua voz forte, no gargalhar quando possível, a presença daquela carga telúrica a que me referi.

V. Exa vem de longe, venceu como magistrado, professor, debatedor, aqui e em outros mares.

Agora, neste instante de agradecimento, que faço em nome de todos nós, – lhe digo, Excelência, que mesmo gaúcho, já não carece de alazão, ou de baio, de chiripá, nem de cingidor, de laço de mangual. Assunte o pampiano e aproveite este momento de sua juventude. Quem sabe, ali na Lagoa dos Patos, o vento pampeiro passando traga Pégaso e o Amigo, qual Perseu dos novos tempos, vá passear no infinito e haja tempo de salvar Andrômeda.

(Texto extraído da Coletânea de Julgados e Momentos Jurídicos dos Magistrados no TFR e STJ. Corte Especial do STJ. 1ª Sessão Extraordinária, de 1º/04/2002.)

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