Discursos e outras falas

Florestas e Diamantes

À feição de prólogo

“Enquanto o machado rechina nos troncos e as labaredas fazem crepitar a folhagem enlutando de fumo o recesso virente, o homem não dá pelo mal, tão ávida é nele a cubiça, que só para o lucro tem olhos. Ai! Dele, a floresta vinga-se morrendo: onde cai esplana-se o deserto… e os espectros das florestas mortas são a fome, a sede, a enfermidade, os ciclones, as inundações.”
(Coelho Neto – Discurso sobre a devastação das florestas – 1911)

“… era dia do meu aniversário: 21 de setembro de 2.352. Em velhos tempos muito velhos, festejava-se nesse dia a entrada da primavera, nome pelo qual se designava então uma das chamadas quatro estações do ano, extintas havia pelo menos quatro séculos. (…)
É difícil saber quem teve melhor sorte, se Luba, que passou o aniversário entre as ruínas da maior cidade do mundo no segundo período da Antiguidade, ou se tu, Roberto, que o estás passando n os recessos de u m grande rio extinto, o maior do n osso continente, o outrora rio-mar chamado Amazonas.”
(Herberto Sales – Do romance A Porta de Chifre –1986.)

Na banda do mar nasci, em Sergipe, na cidade de Estância, outrora Vila Constitucional da Estância, berço da Imprensa na Província. Acolá abracei a Magistratura e o Magistério. Sempre trabalhei pensando em Sergipe e buscando servir a sua gente – a minha gente. Fiz o quanto Deus me permitiu. Bondadosos ventos trouxeram-me ao Planalto Central.

Ilma, a esposa amada, companheira e amiga, sempre ânimo e arrimo. Quatro os filhos queridos: Luiz Carlos, Gisela e Moema já têm assentados aqui os respectivos núcleos familiais; Daniela, juventude e candura, azulece os nossos dias outoniços. Entregamo-nos todos, por inteiro, ao cromatismo do céu de Brasília, ao seu encantado pôr-do-sol – róseo-rubro entardecer, argênteo ocaso ou aurirrútilo crepuscular. Apreciamos as flores e chapadas; alcantis, vales e morrarias deste rechão mágico.

E o mar, com sua canção ondeada? A modernidade absorveu a distância do altoplano à praia, e o canto undíssono é audível em La Mer, de Claude Debussy.

Mas se alguém disser que a sugestão dos vai-e-vens marinhos do poema sinfônico de Debussy foi inspirada nas ondas da Normandia, lá perto de Saint-Germain-en-Laye, onde nasceu o compositor de Pelléas et Mélisande, e não nas do meu Nordeste, eu direi que me não perturba a indagação de Pablo Neruda ao oceano, no verso que Paulo Mendes Campos traduziu:

“………………onde
está a tua origem?”

Antes de criarem Netuno e Afrodite os gregos o fizeram a Oceano, filho do Céu e da Terra, e a Tétis, deusa das águas, e ambos deram origem aos Rios e às Oceânidas. Oceano, “deus do mar, personificação do oceano que rodeia o conjunto das terras habitadas.” O oceano é um.

Por invocar Titãs da velha Grécia nesta oportunidade não me censureis, Senhores Acadêmicos, pois chego a este Soligeu para ocupar a cadeira patroneada por Coelho Neto, um clássico – e por isso mesmo se declarou heleno; e me apresento a vós – porquanto tal honraria ma concedestes, – como sucessor de Herberto Sales, aquele que colheu no Livro dos Sonhos, de Jorge Luis Borges, na tradução de Cláudio Fornari, para servir de epígrafe ao seu romance A Porta de Chifre, trecho do Canto XIX da Odisséia, de Homero:

“Há duas portas para os leves sonhos: uma, construída de chifre; e outra, de marfim. Os que vêm através do brunido marfim nos enganam trazendo-nos palavras sem finalidade; os que saem pelo polido chifre anunciam, ao mortal que os vê, coisas que realmente vão acontecer.”

A legenda homérea diz do sonho revelado pela fiel Penélope a quem por mendigo e estrangeiro se fazia passar, mas em verdade o filho de Laertes era, Ulisses, seu esperado marido que por largo tempo estivera involuntariamente distante de casa e que, de volta a Itaca, buscava de forma industriosa afastar os aqueus que a importunavam. Penélope continha a pretensão dos acaios alegando que escolheria um deles para esposo quando terminado um manto que para Laertes bordava, mas a urdidura do dia astuciosamente destramava de noite.

Augusta Confraria:

Descerrastes a mim a vossa porta e destes abrigo ao meu ousio. Devo agradecer a acolhida. E para vos revelar a satisfação que ao imo me vem, vos digo que o reconhecimento faço – usando palavras do Patrono da Cadeira XXXV – por “vocação da alma”.

Senhores e Senhoras:

Corria a segunda metade do século XIX. Com o notável naturalista Louis Agassiz, diretor da Expedição Thayer, vindos de Nova York chegaram ao Brasil pesquisadores. Entre eles, Charles Frederick Hartt, geólogo canadense. Adiante seria considerado o “fundador da nossa geologia”. Dos estudos que aqui fez resultou, em 1870, trabalho que somente em 1941 teria sua versão em português publicada pela Companhia Editora Nacional, na série Brasiliana. A introdução lavrou-a o grande Roquete Pinto, observando:

“O encanto que têm os trabalhos de Hartt vem, ao que penso, dos acentuados traços artísticos da sua personalidade. Era emérito observador, incansável e atento, mas possuía alma de apurada sensibilidade. Hartt era mestre do desenho a bico de pena e pianista de seguros dotes. Este livro está muito longe de ser um apanhado enxuto e áspero de geologia do Brasil. Ao contrário. Nele palpita a vida do nosso povo, n a época de Hartt; usos, costu mes, notas históricas, anedotas, traços de informações locais e casos bem típicos, …”

Essa sensibilidade que o apresentador de Geologia e Geografia Física do Brasil realça no cientista explica, creio, a referência dele, no prefácio do seu livro, à “terra do sabiá”. Conheceria Hartt os famosos versos da Canção do Exílio de Gonçalves Dias, nascido em Caxias, no Maranhão:

“Minha terra tem palmeiras,
onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.”

Do meu rincão natal Charles Hartt descreve a embocadura do rio Sergipe e lhe traça a bico de pena o desenho:

“Quase atravessando a foz, do lado norte, estende-se uma linha de bancos de areia em forma de crescente. Três destes estão reunidos com as convexidades voltadas para o mar, enquanto as pontas avançam para o rio como longos espetos. Estas pontas de terra de areia em forma de ganchos são produzidas na luta entre o rio e as ondas do mar…”

 Em seu prestante escrito o sábio canadiano diz da costa, do relevo, do clima e das florestas do Maranhão, afirma a lindeza da capital maranhense, então com 35.000 habitantes, e anota que

“a cidade de Caxias, no navegável Itapicuru, a cerca de trezentas milhas do [São Luís do] Maranhão, é uma grande cidade, centro de importante comércio com o interior”

 Graça Aranha, em O Meu Próprio Romance, refere-se à magia da casa, que personifica, do Largo do Palácio, da primeira cidade maranhã:

“A grande casa, larga e sobretudo profunda, é uma pessoa viva na minha lembrança. Ela via uma paisagem que a engrandecia. Do alto da barreira dominava o Caís da Sagração, olhava a Praia do Caju, e, estendendo o olhar por cima do Convento de Santo Antônio, deliciava-se mirando o gracioso Largo dos Remédios, onde Gonçalves Dias sobre a palmeira de mármore espera ouvir o sabiá, que não vem nunca.”

Noutro passo da mesma obra o criador de A estética da vida rememora a festa dos Remédios ludovicense, e novamente a figura estilita do vale de Os Timbiras ganha realço:

“Era a festa por excelência do Maran hão. O Largo dos Remédios fica em uma ribanceira à beira do Anil. No centro, um tronco de palmeira de mármore tem no cimo a estátua de um homem. É Gonçalves Dias. Embaixo no pedestal, os medalhões de Odorico Mendes, João Lisboa, Gomes de Souza, Sotero dos Reis. A poesia, o pensamento, a ciência, a gramática. Orgulho do Maranhão.”

 Também em Caxias nasceu, naquele quartel do Oitocentos, Henrique Maximiniano Coelho Neto.

 Graça Aranha e Coelho Neto desencontrar-se-iam no século seguinte. Sim: o romancista de Turbilhão e o de Canãa situaram-se em campos opostos em relação ao Modernismo. A História guarda o que se passou na sessão da Academia Brasileira de Letras, em 1924, quando, em resposta à rebeldia de Graça Aranha, Coelho Neto bradou: “eu sou o último heleno”.

 Marcado então como passadista, se lhe obumbrou a glória, e por algum tempo a prosa rica, asiática mesmo, de Coelho Neto ficou esquecida. Três décadas decorridas da Semana da Arte Moderna, dele diria Menotti Del Picchia:

“Com admiráveis qualidades de fabulação, com capacidade para traçar o diagrama dos movimentos de uma alma como provou nalguns livros, entregou-se, porém, ao demônio da palavra. Para o jogo malabar do estilo derivou sua fluvial capacidade de criação.”

E de

“… sua paixão pelo maravilhoso brinquedo de fazer as palavras cantar, tinir, coriscar, ranger, bramir, saltar…”

– ainda falaria.

O autor de Rei Negro retomaria sua posição de destaque na literatura brasileira. Sua produção compreende romances e memórias, contos e novelas, e o que escreveu para teatro.

Orador, a palavra como que o procurava, e ele a usava com pompa. Cônscio da sua completitude de artista, a quironomia lhe era fácil: ao verbo correspondia o gesto.

Latino Coelho, que direto do original grego trouxe para o nosso idioma A Oração da Coroa de Demóstenes, quando de sua publicação a precedeu de valioso estudo da civilização da Grécia, em que observa ser oriunda e nativa dali “a eloqüência, como a formosa escultura da oração da palavra”. Do notável helenista é a asserção de que

“pelas graças da imaginação, pela harmonia do desenho, pela variedade e frescura do colorido, pela textura rítmica do período, pelo sublime ser gracioso dos seus quadros e hipotiposes, pelo grave e engenhoso dos seus conceitos, o orador é o primeiro dos artistas.”

 Josué Montello reproduz, em O Conto Brasileiro: de Machado de Assis a Monteiro Lobato, página de Luso Torres, de que recolho este trecho:

“E as mãos de Coelho Neto? As mãos de Coelho Neto também falavam, riscavam no ar curvas palpitantes,  esculpiam admiravelmente tudo quanto ele descrevia, reforçando as construções verbais, já de si mesmas fortes e eloqüentes. Eu vi aquelas mãos secas, nervosas, a vibrarem sincronicamente com o seu coração malferido, nessa hora de defesa trágica, enfrentando a mentira, que ele compara à cobra traiçoeira, de língua bífida no ar, inquieta, preparando-se, toda ela elasticidade e veneno, para atacar a sua vítima. Quando fala da língua bífida do réptil, o grande artista estende o braço num impulso, e dobrando sob o polegar os dois dedos menores, move alternadamente os dois outros dedos retesos, a imitar os filetes em que se biparte a língua do ofídio, fixa os olhos fulgurantes como duas brasas na serpe imaginária, e atira para trás a outra mão e recua ligeiramente o busto, como quem compreende as negaças e se resguarda do bote. Tem-se a impressão de que ali se trava um duelo de morte entre o apóstolo da virtude e a fera rastejante, que ficará esmagada.”

 Naquele estudo mencionado Latino Coelho assevera que:

 “de todos os gêneros de literatura o mais difícil, é aquele, de conseguinte, em que são mais raros os triunfos que os naufrágios, é a oratória política…”

Sob o título singelo de Falando… estão reunidos Discursos na Câmara e Discursos Literários de Coelho Neto. No pronunciado aos Deputados Federais a 6 de setembro de 1911 tratou da devastação das florestas e – não fosse ele um heleno! – lembrou que a Grécia protegia as suas florestas com a religião:

“… eram templos oraculares como Dodona e Elêusis; eram centros de poesia como na Trácia órfica; eram asilos de encontros como os recessos obscuros das carvalheiras da Tessália; eram diversórios de saúde como os recantos virentes do bosque de Epidauro. Na floresta reuniam-se os deuses, e trabalhavam as ninfas e cada árvore tinha, para garantí-la, uma hamadríade e assim tornava-se augusta como uma ante-câmara do Olimpo e o homem, atravessando-a parava, às vezes, num temor sagrado, ao ouvir o sussurro dos ramos, como se nele reconhecesse a voz dos entes silvanos pronunciando augurios.”

Acadêmico Carlos Fernando Mathias de Souza:

Temos trabalhado juntos não poucas vezes, para honra e alegria minhas, na área cultural. Quando dirigia o Centro de Estudos Judiciários do Conselho da Justiça Federal busquei colaboração sua e do Professor Arnaldo Niskier, então Presidente da Academia Brasileira de Letras, para tornar realidade uma edição fac-similar de O Pau-Brasil na História Nacional, de Bernardino José de Souza, figura notável da historiografia e da fitogeografia brasileiras. O CEJ preparava um seminário internacional sobre Direito da Biodiversidade. Alcançamos bom êxito.

No primeiro tomo do Subsidiário Herberto Sales registra ter sido aluno do mencionado Mestre, e acrescenta esta notação:

“Muitos anos depois, morto já o professor Bernardino de Souza, tive a honra de promover, como diretor do Instituto Nacional do Livro, a reedição de um dos seus grandes livros, O Pau-Brasil na História Nacional. Foi com muitas saudades dele, machadianas saudades de mim mesmo, que assinei o contrato de co-edição.”

 Semeamos em campo fértil, Senhor Acadêmico, e, considerado o quanto de interesse pelo meio ambiente se tem visto e ouvido, farta tem sido a messe.

 Certa feita nós ambos conversávamos sobre Herberto Sales. Vossa Excelência sorria, sorria e sorria a lembrar trechos da “obra literária chaplinesca”, como de Einstein, o minigênio, disse um europeu professor de literatura portuguesa, segundo o próprio autor, em Subsidiário, donde transponho este tópico:

 “A leitura dos originais, em seu natural e total desdobramento, eu dividi entre dois outros amigos meus: Carlos Fernando Mathias e Bernardo Elis… Eu me impressionava com as gargalhadas que a leitura do romance provocava nesses dois tão receptivos amigos.”

 O romance Einstein, o minigênio contém sátira a uma parcela da sociedade supostamente culta, mas de fato apenas submetida a modismos pseudo- científicos. Isabel, “moça danada de inteligente, secretária do Clube das Amigas da Literatura Infantil (CALINFA)” – assim a descreve Herberto Sales – casa-se com Jasão e partem “para programar um minigênio de acordo com as últimas teorias norte-americanas sobre o desenvolvimento dirigido do QI, que Isabel conhecia de cor e salteado.” Foram observados todos os necessários cuidados durante a gravidez. Ao fim, nasce Einstein, sobrenome que ficou sendo prenome qual o Goethe, de Johann Wolfgang, e o Mozart, de Wolfgang Amadeus, – como explicou a mãe. Para cuidar do gênio programado foi admitida uma nurse: Miss Martha, que deveria se fazer ouvir, pelo bebê, em inglês. Certo dia… (reparai nesta cena de Einstein, o minigênio) –:

“– Dizendo o quê? – insistiu Isabel.
Então, Einstein, que sentado no berço brincava calmamente com os seus chocalhos culturais, olhou com um ar superior e adulto a família reunida tão aflitamente em torno dele, e pausadamente disse:
– Parâmetro.
– Não é possível! – exclamou Jasão, numa palidez perplexa. – Então, era isso que ele queria dizer com aquele pa-pa-pa… E eu imaginando que o que ele queria dizer era papai! Meu Deus…”

A página lembra a divisa da comédia imaginada pelo poeta Jean de Santeuil, no século XVII:

“Castgat ridendo mores”,

 de que se valeria Balzac na dedicatória de Ilusões Perdidas a Victor Hugo.

Senhoras e Senhores:

Orville Derby, ainda estudante, acompanhou Charles Hartt quando de sua expedição à Amazônia. Depois, fixou-se no nosso País, a que prestou serviços de monta.

Theodoro Sampaio, na Bahia nascido em Santo Amaro, com Orville Derby seguiu em expedições ao interior do Brasil. Da jornada de 1879-1880 adveio O Rio de S. Francisco e a Chapada Diamantina, obra primeiramente publicada em São Paulo por Escolas Profissionais Salesianas, no ano de 1906.

Discorre, com pormenores, sobre a Chapada Diamantina e em certo passo diz:

“Assim também, do ribeiro do Cajueiro que vem do norte com um curso de duas léguas e se lança no Paraguassu perto da povoação da Passagem e em cujo vale se formou o populoso arraial do Andaray, distante cinco léguas de Santa Izabel para o nor-nordeste, se extraíram libras de diamante.”

 Herberto Sales nasceria no populoso arraial naquele outro tempo de Andaray, lá na Bahia.

 Atentai, senhores, neste quadro que retiro da exposição de Theodoro Sampaio:

 “… o trabalho da mina era feito parte a céu aberto e parte subterrâneo, ou através das lapas ou grunas, que é como aqui se denominam essas escavações mais ou menos extensas, e, geralmente de pouca altura, feitas pelas águas.

O trabalho capital aqui consistiu em desviar as águas por meio de diques transversos e longitudinais combinados de modo a manter-se em seco, ou em remanso a parte do leito do rio cujo cascalho deve ser lavado. Se o serviço é para as grunas ou lapas, o esforço maior converge para manterem-se estanques, ou livres de inundações esses baixos subterrâneos, cujo cascalho interior carece de ser retirado a braço, penetrando neles os operários de joelhos, e não raro debruçados sobre a laje, arrastando o ventre contra a pedra, tocando com a cabeça o teto da caverna.”

Nos meados do século passado, na alocução proferida quando da abertura do Curso de Romance promovido pela ABL, disse Aníbal Freire, seu Presidente de então, que o romance

“tem de ser a transposição da vida real, com os tons de imaginação indispensáveis a lhe imprimir característica, sob pena de transformar a obra de ficção em história.”

 Herberto Sales sucedeu, na Academia Brasileira de Letras, a Aníbal Freire da Fonseca. Eis o remate do seu discurso de posse:

“Sou, assim, Srs. Acadêmicos, o primeiro ficcionista a ocupar a Cadeira nº 3. Espero que a singularidade desse pormenor faça lembrado o meu nome como autor de contos e romances.”

É bem certo que a presença de Herberto Sales na romancística brasileira não decorre daquela singularidade mencionada. Por valia própria a sua produção literária possui ostensibilidade assegurada no horizonte cultural brasiliano.

Naquele 21 de setembro de 1971 deu-lhe resposta, na ABL, Marques Rebelo, deste modo iniciado seu discurso:

“O destino não é inconseqüente, às vezes.”

 E passou a dizer da carta recebida de um jovem de Andaraí dando conta de haver enviado, sem sucesso, um romance para um concurso no Rio de Janeiro. Queimara-lhe a cópia. Poderia o destinatário da carta reaver o manuscrito? São palavras do recepcionante:

“E o já falado destino funcionou. Era do regulamento do concurso que os originais não seriam devolvidos –  seriam destruídos. Mas os do Cascalho não o foram. Aurélio Buarque de Holanda era o secretário do concurso. Dá-se que o romance trazia um glossário que interessou profunda e profissionalmente o nosso grande dicionarista. Aurélio poderia ter retirado as páginas do glossário e mandado a literatura concorrente para o lixo. Não o fez – guardou o calhamaço todo. E, a pedido, mo entregou.”

Os ventos do destino à s vezes são travessões; outras tantas, simplesmente travessos, como no caso. Salvos o romance e o romancista também, ganhamos todos.

Cascalho, de Herberto Sales, nada obstante livro de estréia, contém páginas de primeira água. Águas-fortes incrustadas na nossa literatura. A enchente do Paraguaçu e o Cel. Germano, que num pesadelo vira diamantes boiando “como estrelas, descendo rio abaixo,” dão marca de perenidade ao texto herbertiano. Considerai, senhores, este traço:

“De pé, cercado pelos garimpeiros, a face apreensiva recortando-se à luz das candeias, o coronel contemplava o espetáculo da cheia. Estava no alto de uma pedra, as mãos nos bolsos do capote, o chapéu desabado. Em volta, na escuridão reinante, os garimpeiros como que se prostravam diante daquelas duas forças que se defrontavam na noite: as águas ronquejantes e o patrão majestático.”

 Lembrai-vos do explanar de Theodoro Sampaio a respeito de lapas ou grunas? Medi a narrativa, de transbordante intensidade que, sincopadamente, tiro de Cascalho:

 “Começaram a entrar na gruna. Um bafo de umidade retida os envolve. Filó vai na frente, seguido de perto por Joaquim Bôcade Virgem e Neto… Agora já é preciso curvarem a cabeça porque a gruna se torna cada vez mais baixa… Entre o teto e o chão há apenas uma fenda, como se o caminho tivesse terminado ali. Mas é necessário avançar mais – e Filó avança, agachando-se, a princípio, para logo se estirar de comprido sobre a laje… Atrás dele, também de rastros vêm os demais companheiros, com o rosto a um palmo de distância da planta dos pés uns dos outros, formando a fileira por meio da qual se farão chegar os sacos de cascalho à boca da gruna… Filó… calcula já ter avançado uns trinta metros pela gruna adentro. É noite, mas ainda que fosse dia a escuridão da gruna seria a mesma. …

Em alguma parte, há um ruído incessante de água pingando… De repente, o bafo de umidade se torna mais acentuado, ao mesmo tempo que os dois homens escutam o rumor de qualquer coisa que começa a correr. Entreolham-se espantados: foi a chuva que desabou lá fora… Tão rápido como o seu pensamento, o fio da minação deslisa por entre as pedras e, à luz das candeias, torna-se uma realidade a presença ameaçadora da água. …

Sente-se apanhado irrevogavelmente na armadilha: ia morrer como um bicho – sem vela nem sentinela……

Filó já não acredita na possibilidade de salvamento. Deixa-se arrastar pela água, e por ela unicamente se orienta… Tenta em vão erguer-se, e a água já o impede de respirar. O rumor cresce aos seus ouvidos – a água bateu de encontro ao teto, saltando como uma coisa viva, acometendo por dentro da escuridão… De repente, pareceu-lhe que nada tinha que ver com o que pudesse ocorrer ali.  Houve então um baque, um estrebuchamento, e a água, por fim, encheu totalmente a gruna.

Era de manhã… Mais uma vez, o velho Justino ia à procura do coronel para lhe dar notícias do garimpo: morrera apenas um homem.”

Cascalho, na expressão de Sergio Milliet o “primeiro grande romance da região diamantífera,” desde a 2ª edição brasileira com o texto considerado definitivo pelo autor, anda de ceca e meca, em traduções, por este mundo de Deus: theco, chinês, italiano, polonês, russo, espanhol, francês, coreano, japonês, romeno.

Dois prêmios recebeu Herberto Sales em razão de Além dos Marimbus: o Paula Brito, do antigo Estado da Guanabara, e o Coelho Neto, da Academia Brasileira de Letras. É o romance das matas do Andaraí, nele revelada já a preocupação herbertina com a vida ambiente, no confronto entre a cupidez do machacaz Jenner e a visão da mata transformada em deserto, do fazendeiro João Camilo que, quando abordada a compra de madeiras, lhe disse:

“– Eu não posso assumir o compromisso de fornecer madeiras a vosmecê. As árvores têm vida, como um ser humano. Vosmecê me desculpe, mas, para mim, cortar uma árvore, é como se fôsse um crime.

E desviando os olhos para a janela aberta e mergulhando-os na escuridão:

– Eu só posso vender a vosmecê as árvores mortas. São as únicas que eu corto aqui na Sapucaia. Essas eu poderei negociar com vosmecê. Vamos esperar. Deixemos que as árvores morram primeiro.”

Esse seu cuidado com a natureza o teria levado à criação do panorama de tom surrealista de A Porta de Chifre: leitos secos de rios utilizados como estradas por onde trafegam movidos a pilhas super-radiadas de energia solar acumulada carros com capacidade para, no máximo, três pessoas, e velhos coches desativados, que passaram a ser utilizados com tração animal – camelos, alimárias adaptadas ao Deserto Amazônico,

“extensa tumba imensa e branca do velho rio que um dia correra por ali e que ali morrera.”

Depois de criar, na linha de rumo dos romances, Dados biográficos do finado Marcelino, O fruto do vosso ventre, Na relva da tua lembrança, e aquele escrito à horaciana – Os Pareceres do tempo, Herberto Sales tornaria a ambientar uma narrativa, em Rio dos morcegos, nas Lavras Diamantinas, precisamente em Andaraí – a cidade, seus arredores, sua povoança.

Os Corumbas, de Amando Fontes, publicado nos anos Trinta do século recém findo foi rica achega ao nosso ficcionismo. Expõe a pungência do viver de uma família que se desloca da área rural para o meio urbano. O cenário é a Aracaju de quando iniciada ali a indústria têxtil. Herberto Sales, mestre fabulista, lhe deu seqüência em A Prostituta, de 1996.

A produção literária do primeiro ocupante da Cadeira XXXV, que desejei e com o vosso beneplácito venho ocupar, é dual no sentido de que nela há o que escrito foi para adultos e o elaborado para crianças, ou qual a expressão dele, “o livro que as crianças, gostam de ler”. Neste ponto há de ser lembrado O sobradinho dos pardais, multipremiado; e também O menino perdido, em que o narrador relembra uma viagem de trem,

“um trem que ia mundo afora, mata, rio, rio, mata, mata, rio, rio, mata, sacolejando. Sobre os rios, as pontes, sobre as pontes, o trem, que ia e ia toda a vida…”

O ritmo da prosa herbertiana me traz à mente o movimento final – Tocata – de Bachianas Brasileiras nº 2 de Villa-Lobos, o mais que famoso Trenzinho do Caipira. No caso, um trenzinho carregado de machadianas saudades dele mesmo Herberto.

Percebe-se na obra ficcional de Herberto Sales uma religiosidade contida, que mais se intermostra em alguns tópicos das confissões, memórias e histórias registradas nos três tornos do Subsidiário; denotando de certa forma, sua predisponência para a elaboração da admiranda História Natural de Jesus de Nazaré, estampada em 1997. A bibliografia correspondente incl ui significativamente em Fontes Principais:

“… eu, o autor, Herberto Sales, do muito ou pouco que tirei de dentro de mim, de minha alma, antes que ela se renda a Deus.”

 E não vos disse dos seus contos e recontos. Sim, calei a beleza de Histórias Ordinárias, premiado pelo Pen Club do Brasil, e do reconto de A Cabana de Pai Tomás, baseado na obra de Harriet Beecher Stowe; silenciei sobre a reconstrução das narrativas da Condessa de Segur.

 Já agora mais não vos digo, queridos audientes, porque

 “vai-nos faltando o tempo ou eu vou sobejando a ele”,

 como se expressou, há mais de três séculos, o sermonista Antonio Vieira, da Bahia – de Herberto Sales, e também do Maranhão – de Coelho Neto; Maranhão e Bahia, Herberto Sales e Coelho Neto – riquezas da terra e do povo do nosso imenso e imensamente amado Brasil.

 Laus Deo

[Discurso de posse na Academia Brasiliense de Letras na Cadeira nº XXXV, Patrono Coelho Neto, em sucessão ao Acadêmico Herberto Sales, aos 17 de outubro de 2001, in: Orações Acadêmicas. Fontes de Alencar/Carlos Fernando Mathias de Souza. Brasília, Editora e Gráfica Criativa, 2001.] 

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