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O Rosto Perdido

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Almeida Fischer (1916-1991) foi crítico literário, contista, professor de Teoria Literária e de Literatura Brasileira; poeta e também autor de novela e romance.  A Academia Brasileira de Letras o galardoou, por produções literárias, com os prêmios Afonso Arinos e Assis Chateaubriand.Marcada ficou sua presença aqui no planalto: cofundador da Associação Nacional de Escritores em 1963, da Academia Brasiliense de Letras (1968) e da Academia de Letras do Brasil (1987), tríade em Brasília sediada.

De sua autoria é O Rosto Perdido, cá publicado em 1970. Disponho  da sua 2ª edição, tirada pela Record (Rio de Janeiro) e  INL (Brasília), de 1978, que registra ser a obra dedicada a Dinah Silveira de Queiroz, Marques Rebelo e R. Magalhães Junior. Esse livro contém estudo introdutório titulado Romance e Mistério de Flávio Macedo Soares, e o prefácio de Lêdo Ivo, de instigante designação: Quem é quem, Almeida Fischer?

Machado de Assis, bem antes de alcançar o ápice da romancística nacional com o Dom Casmurroadvertia, em trabalho de 1873, que o romance exige da parte do escritor qualidade de boa nota;para logo acrescentar:

Pelo que respeita à análise de paixões e caracteres são muito menos comuns os exemplos que podem satisfazer à crítica; alguns há, porém de merecimento incontestável. Esta é, na verdade, uma das partes mais difíceis do romance, e ao mesmo tempo das mais superiores(v. de MA, O jornal e o livro – São Paulo: Companhia das Letras, 2011).

Aquela qualidade de boa nota e a incontestabilidade do mérito as possuía o romancista Almeida Fischer. Eis o que Lêdo Ivo, que integrou a Academia de Letras do Brasil e a Brasileira de Letras, o autor do proêmio a obra fischeriana de que me ocupo, assinalou a propósito:

Romancista nato e nítido, em permanente inteligência com o lavor e o primor, Almeida Fischer timbra em exibir, desde o primeiro lance de sua narrativa, a capacidade, essencial num contador de histórias, de converter a eventual inverossimilhança numa realidade autônoma e até arrogante. O direito do romancista, de ultrapassar as fronteiras em que o real cotidiano ou civil se aprisiona a si mesmo, Almeida Fischer o exerce com o tirocínio e a gentileza daqueles que sabem ser a realidade da ficção uma conquista da imaginação e o resultado da eficácia do texto e da congruência formal. Assim, a história de um transplante de cérebro é tratada, neste romance com uma versatilidade que abrange, em sua cuidada tessitura, as mais várias linhas da realidade – e, por isso, propõe ao leitor a admissão de diversos modos de lê-la.

Nos idos da quinta década do Novecentos surgiu, editado pela José Olympio, do Rio de Janeiro, compondo a Coleção de Documentos Brasileiros, dirigida por Gilberto Freyre, O Romance Brasileiro – As suas origens e tendências, estudo de Olívio Montenegro (1896-1962), com texto preambular do próprio Mestre de Apipucos.

O paraibano que se radicara no Recife nesse seu livro escreveu:

Nos grandes romances psicológicos a Proust, a Joice, a Meredith, e de certa maneira a Dostoiewski e a Gide, a ação a vemos sempre lenta, difusa, fria, e algo dormente como uma luz indireta, uma luz de reflexos. A ação não vale por si como representação de vontade, mas pelo que exprime em substância de vida; em ideia.

E pouco adiante arrematou o ensaísta:

A atmosfera dos grandes romances psicológicos nem sempre é transparente e fluida como nos romances que vão diretamente à compreensão popular; é, ao contrário, densa e profunda. Mas o que nela reflete do meio dia das coisas reflete com uma nitidez que atinge além da memória – atinge à consciência mesma da nossa vida.

No meado da centúria passada a Academia Brasileira de Letras, então sob a presidência de Aníbal Freire da Fonseca (Lagarto-SE/ 1884 – Rio de Janeiro/1952), promoveu o Curso de Romance. Seu primeiro conferencista foi Menotti Del Picchia, o poeta de Juca Mulato. Acentuou que o romance tem como objeto também a ousada incursão no mundo onírico ou supra-real, desbordando da ideia do tempo e do espaço, localizando seus panoramas quer no agreste chão desta  terra, quer no fluido e ilimitado território da imaginação. Em sua preleção ele, o autor de Salomé, disse do romancista:

… é um Deus terrestre operando o milagre de soprar almas na carne do verbo, material que cria vida do espírito e transfere a vida fungível para o plano eterno da criação artística.    

Neste início de século a mídia tem noticiado transplantes faciais indicadores de enorme desenvolvimento da arte cirúrgica relativa a transplantação de órgãos. O romance de Almeida Fischer, porém, versa tema outro, o de espantosa transferência de cérebro humano. Que importa ao leitor haver a ciência dos nossos dias assentado o conceito de morte encefálica; ou carecer o tópico de verossimilitude? A criação literária prescinde da verisimilidade.

Peregrino Junior, igualmente expositor naquele Curso, com acuidade, acerca do criador de Dom Casmurro percebeu:

Homem do fim do século XIX – do século de Balzac e Stendhal – Machado é anterior a Proust e Joyce. A sua aventura intelectual é, pois, surpreendente e singular, por antecipadora. Ele soube exercer o ofício da análise em profundidade, dando mergulhos verticais no fundo da alma humana, com a lucidez adivinhadora dos modernos profissionais  do romance psicológico.

O Rosto Perdido, que se ambienta em Brasília, tem uma bem elaborada fabulação. O trabalho de Almeida Fischer situa-se no rol dos romances psicológicos. Sua reedição seria bem oportuna, sobretudo neste ano do qüinquagésimo aniversário da ANE.

Fontes de Alencar

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