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De Prosadores e Poetas

I

Honoré de Balzac (1799-1850) – conhecidamente criador do romance moderno, o fecundo autor de A  Comédia Humana – em A Mulher de Trinta Anos (tradução de Paulo Neves) assim disse daquele último desfile:

Esse domingo era o décimo terceiro do ano de 1813. Dois dias depois, Napoleão partia para aquela campanha durante a qual ia perder sucessivamente seus generais Bessières e Duroc, ganhar as memoráveis batalhas de Lutzen e de Bautzen, ver-se traído pela Áustria, pela Saxônia, pela Baviera, por Bernadote, e disputar a terrível batalha de Leipzig.

…Ordens de comando propagaram-se de fila em fila como ecos. Gritos de “Viva o imperador!” foram lançados pela multidão entusiasmada. Tudo enfim vibrou, agitou-se, estremeceu. Napoleão estava a cavalo… Os muros das altas galerias do velho palácio pareciam também gritar: Viva o imperador! Não foi algo de humano, foi uma magia, um simulacro da potência divina, ou melhor uma breve imagem desse reinado tão fugaz… Entre tantas emoções por ele excitadas, nenhum traço de seu rosto pareceu se comover.

A poética hugóica (1802-1885) encantou fortemente o poetar do século XIX, sobretudo o seu verso altíssono que retumbou no nosso condoreirismo. A doce lírica, contudo, perdura entre nós em virtude da  vernaculização de versos seus por compatrícios nossos, dentre os quais Tobias Barreto, no século XIX – v. O Tradutor Ignoto, no Jornal da ANE de nº 42 –,  e deste nosso tempo, Anderson Braga Horta, José Jeronimo Rivera e Fernando Mendes Vianna.

De enorme significância também é sua criação em prosa. Os Miseráveis, de 1862, traz prefácio do próprio Hugo – forte brado contra a ignorância e a miséria do mundo. No Livro I da 2ª parte da obra, Waterloo. Em dado momento da narrativa – na versão de Regina Célia de Oliveira – o prenúncio dramático:

Todos conhecem o pungente equívoco de Napoleão; Grouchy era esperado, mas foi Blücher quem veio; a morte em lugar da vida.

O destino dá essas voltas. Esperava-se o trono do mundo, avistou-se Santa Helena.

E o gênio do romancista fê-lo traçar mais este quadro singular:

Ao cair da noite, em um campo nas imediações de Genappe, Bernard e Bertrand seguraram pelo casaco, e fizeram parar, um homem desvairado, pensativo, sinistro, que, arrastado até ali pela torrente da derrota, acabava de descer do cavalo, e, depois de enfiar o braço pela rédea, olhos perdidos, voltava sozinho para Waterloo. Era Napoleão tentando ainda avançar, gigantesco sonâmbulo desse sonho arruinado.

II

Em alusão ao tempo da mocidade de Joaquim Nabuco observou Graça Aranha, em obra de 1923, que os jovens poetas do romantismo, formantes da dianteira literária, eram atrasados em relação ao agitamento ideativo, e acresceu que já Baudelaire havia, desde 1857, transfigurado a musicalidade da poesia, Verlaine dava ritmo à melancolia universal, Walt Withman antecipava o fulgor dionisíaco de Rimbaud.

Entre os moços que então aqui poetavam, Pedro de Calasans (1836-1874), nascido lá no meu Sergipe. Clóvis Bevilaqua em História da Faculdade de Direito do Recife, que diz do primeiro centenário da veneranda Instituição, nomenclaturando os  bacharéis  de 1859, ao nome de Calasans acrescentou: excelente poeta. São obras dele: Páginas Soltas, Últimas Páginas, Ofenísia, Wesbade, Uma Cena de Nossos Dias, Camerino e Cascata de Paulo Afonso; a terceira, publicada em Bruxelas, no Reino da Bélgica; a quarta e a quinta, em Lípsia, na Alemanha. Para Domingos Carvalho da Silva ele influenciou Castro Alves ou … que, pelo menos, o impressionou. Um dos poemas de Castro Alves traz uma epígrafe de Calasans ( A Presença do Condor – Clube de Poesia de Brasília, 1974). Remete-se o ensaista a versos recoltados do poema Sete Sonos.

O Sesquicentenário do poeta ficou marcado pela publicação, que o Estado de Sergipe promoveu, de Verso e Prosa de Pedro de Calasans (Organização, introdução e notas de Jackson da Silva Lima).

Lamartineano, essa sua tendência dos primeiros tempos evidenciava-se no poema Escuta, de que reproduzo os versos iniciais:

Se para amar-te for mister martírios,
Com que delírios saberei sofrer!              

O referido historiógrafo, autor, dentre outras obras, de História da Literatura Sergipana (I e II), ao repertoriar as produções do vate frisou:              

Seu lugar na literatura pátria é assegurado pelo íntimo convívio com as musas… Muitas são as facetas dessa presença estética…: abolicionismo, ultra-romantismo, literatização do popular, realismo crítico-social, sátira e ironia, experimentação lúdico-verbal.               

Em relação ao campo de ação último, Jackson da Silva Lima em seu repertório realça a composição poética Lucidus Ordo, que se acha em Ecos da Juventude (manuscrito). Calasans buscou o título em Horácio (Ars Poetica – Epistula ad Pisones) precisamente no verso que Dante Trigale assim traspassou para o português: a quem escolher a matéria segundo suas forças, nem a facúndia, nem a lúcida ordem o abandonarão (São Paulo: Musa Editora, 1993).

Agora, caro leitor, o soneto:

Lucidus Ordo

Meu tinteiro por tampa tem o busto
De um vendilhão saxônio atido ao copo;
Pode-se compará-lo, e até sem tropo,
A um Bernardo roaz, rolho, robusto!

Lacre, lápis, papéis, penas! – a custo
Com o que procuro raras vezes topo!
Autos, Byron, Lobão, Ortiz (Jacopo),
Poesia e direito: o belo e o justo!

Marca a espátula ebúrnea o velho Autran;
Descansa Mackeldey sobre Stendal;
Marca um cigarro as folhas de Ortolan!

Repousa meu cachimbo sobre Stäel
A Bíblia acotovela o D. Juan…
Ordem lúcida assim – ninguém viu tal!

Fontes de Alencar

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