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Rui Barbosa e a Grande Guerra

Inaugurava-se a centúria. No primeiro dia de 1901 A Imprensa, da antiga Capital da República, publicava o artigo No Século XX, de Rui Barbosa.  O volume I da Estante Clássica da Revista de Língua Portuguesa, dirigida por Laudelino Freire, o reproduziu em novembro de 1920. O douto articulista, depois de debuxar o mapa político do planeta naquele então, disse como madrugava o século:

A guerra chino-japonesa, a guerra hispano-americana, a guerra anglo-boer, três guerras de ambição, três guerras de conquista, três guerras de aniquilamento esboçam os pródromos do mais demarcado conflito a que nunca assistiu a espécie humana. As grandes nações aprestam recursos inauditos, para concorrer à divisão dos países semi-civilizados e ocupar os últimos lugares na área terrestre. A teoria da absorção dos fracos pelos fortes legitima de antemão a hipótese iminente. Não resta às nacionalidades ameaçadas senão apelarem para a sua própria energia (…) 

E também:

De balde os votos dos filantropos, os sonhos dos idealistas e as esperanças dos cristãos, evocam, no limiar desta idade, a imagem benfazeja da paz (…). Nunca esse desideratum esteve mais longe de nós que após o congresso de Haia.

Entre o quanto escreveu o periodista na estréia do Novecentos, ainda a menção ao aniilamento, pela Rússia, das liberdades polacas. A referência ao congresso de Haia prende-se à primeira das Conferências dali, a do ano de 1899. Nela o Brasil não esteve presente.

Ademais, nem se fechara um septênio da publicação mencionada e a Delegação Brasileira, chefiada por Rui Barbosa, já se achava na Haia para a segunda Conferência de Paz, a de 1907.

As orações por ele pronunciadas perante os representantes das Nações que consideraram o convite do Tzar – o imperador da Rússia, foram reunidas por William T. Stead, redator do Courrier de la Conférence, que lhes agregou uma introdução e publicou Brazil at the Hague. Arthur Bomilcar fez a tradução para o português. Em 1925 a Imprensa Nacional, do Rio de Janeiro, deu a lume a 4ª edição de O Brasil em Haia, com a notação de definitiva.

O Brasil pela voz de quem chefiava sua Delegação ao Congresso sustentou a igualdade jurídica dos Estados, o que fez com magistralidade. Atentem os leitores para o que se contém neste tópico da sua fala de 9 de outubro, depois de referência a artigo do Times, de Londres, edição de 21 do mês antecedente:

Por certo que entre os Estados, como entre os indivíduos, diversidades há de cultura, probidade, riqueza e força. Mas, daí derivará, com efeito, alguma diferença no que lhes entende com os direitos essenciais? Os direitos civis são idênticos para todos os homens. Os direitos políticos são os mesmos para todos os cidadãos. […] Pois bem: a soberania é o direito elementar por excelência dos Estados constituídos e independentes. Ora, soberania importa igualdade. Quer em abstrato, quer na prática, a soberania é absoluta: não admite graus. Mas a distribuição judiciária do direito é um dos ramos da soberania. Logo a ter de existir entre os Estados um órgão comum da justiça, necessariamente nesse órgão todos os Estados hão de ter uma representação equivalente.

Como quer que seja, todavia, pretendem submetê-los a uma classificação. E quem a exerce? Os Estados fortes.

Meado o ano de 1914, não mais os prelúdios do conflito a que nunca assistiu a espécie humana; mas a brutal tragédia da Grande Guerra, a Primeira.

Era 1917. Nesse tempo, Rui Barbosa proferiu aos 17 de março conferência no Teatro Petrópolis da cidade que lhe dá o nome, promovida pela Diretoria local da Cruz Vermelha em benefício das vítimas da enorme conflagração. Dessa ciceroniana exposição dou-lhes, leitores, fragmentos:

As hordas teutônicas necessitavam de abrir caminho através da Bélgica ao coração da França. Se a Bélgica não entregasse a honra, havia de entregar a vida. Os exércitos alemães  precisavam  de passar-lhe por sobre o corpo, a fim de chegarem a Paris nas duas semanas aprazadas. 

[…]

O suplício da Bélgica, o da Sérvia, o da Polônia, o da Armênia, todos esses atos sucessivos do inaudito cataclismo …

[…]

Na França, na Bélgica, na Itália, as balas inimigas derribam os campanários, varejam as naves, esborcinam os altares, arrancam, destroem, lançam por terra, metem sob os pés da soldadesca as imagens sagradas.

E depois de considerar declaração que o General von Dithfurt dirigiu ao mundo por um jornal de Berlim,  clamou:

Que é o em que colidiam com a sua comodidade e a sua atividade militar essas maravilhas de Ypres, a sua Halle de Drapiers, os seiscentos mil volumes, os inestimáveis incunábulos, os manuscritos, as gravuras, as salas silenciosas da Biblioteca de Louvaina e esse número inumerável de campanários, cruzes, abóbadas, naves sacrossantas, cujas maravilhas, ufania da arquitetura cristã, os canhões, as metralhadoras e os aeroplanos alemães têm combatido valentemente, desde a Bélgica até a Itália, desde o mar do Norte até ao Adriático, desde a igreja de S. Pedro até às de Veneza?

No subtítulo O Latrocínio da Conquista assim falou Rui:

O Schleswig-Holstein, a Alsácia, a Polônia. Que significam estas três denominações? Três pacientes da voracidade germânica, três vítimas do latrocínio da conquista, três mutilações nacionais em proveito do colosso imperial, uma província da Dinamarca espoliada, uma província da França  vencida, uma província da Polônia retalhada, que ele sorveu em três rasgos de rebeldia contra o direito inconcusso.

Mas não basta que as reduzisse pela violência, que as separasse da carne da sua carne, que as agregasse ao inimigo da sua raça. Não. Era mister que o Dinamarquês, o Francês e o Polaco, nacionalidade e língua, se diluíssem à força no alemão.[,,,] Embora se proscreva das escolas a amada língua pátria, […] embora a perseguição multiplique os seus vexames, embora os naturais do território sejam neles tratados como  estrangeiros, intrusos e malfeitores, a reação invencível da natureza persiste e se eterniza, exagitando e desatinando os opressos.

O texto integral da Conferência de Rui Barbosa no Teatro Petrópolis da bela cidade serrana foi publicado em português na Inglaterra – Londres: Eyre and Spottiswoode, Ltl – 1917.

O armistício de novembro de 1918 pôs fim às hostilidades entre os beligerantes. Em 1919 adveio o Tratado de Versalhes. A Paz chegava…

Fontes de Alencar

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