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Dois tradutores de Dante Alighieri

Floresta desmedida e ainda hoje com misteriosos recantos inacessíveis é o mundo dantesco; nem menos aterrador, para o leigo e até para o especialista, é o pélago nem sempre bonançoso em que navegam dantistas de todas as línguas e crenças – poetas, artistas, estudiosos ou apenas admiradores, com raríssimas vozes desafinadas no meio do coro universal – assim iniciou Giacinto Manupella o preâmbulo de seu trabalhoDantesca Luso-Brasileira: subsídios para uma bibliografia da obra e do pensamento de Dante Alighieri (Coimbra, 1966).

Ia a meio o Novecentos quando a Editora das Américas, de São Paulo, publicou, em 10 volumes, Obras Completas de Dante Alighieri (Texto original italiano e a tradução em prosa portuguesa). O volume I traz o Estudo Introdutório, abrangente de Traços Biográficos do poeta e de uma exposição sobre o excelso carme e explanação acerca de Dante e Beatriz, bem como análise das Obras Menores do notável florentino;  e mais a tradução dos trinta e quatro cantos de O Inferno, com os comentários correspondentes, pelo Mons. Joaquim Pinto de Campos – (1819, região de Pajeú, Pe-1887, Lisboa).

Esse intérprete do poeta foi, além de diretor da biblioteca da Faculdade de Direito do Recife, deputado e senador do Império. Na sua História da Faculdade Clóvis Bevilaqua registrou: segundo afirmam, foi o mais aproveitado leitor que teve a biblioteca da Faculdade, durante as duas dezenas de anos  em que a dirigiu, de 6 de outubro de 1855 a 1875. A ele deve a Biblioteca algumas provisões de bons livros.

Destaco a observação desse tradutor de Dante a respeito da relevância das Obras Menores:

Compulsado tudo isso, reconheci que Dante era o único e verdadeiro intérprete de si mesmo, e que o volumoso pecúlio de comentários, que eu tinha feito era um mistifório indigesto… condenei às chamas tudo… Desde o dia pois, em que ardeu a Troia das minhas ilusões, os meus estudos dantescos mudaram essencialmente de direção. Tive por conseguinte de rever toda a minha tradução dos trinta e quatro cantos do Inferno, que na sua generalidade, foi reformada, em vista das novas luzes, que a leitura das Obras Menores do Poeta derramou sobre o seu complicado enredo.

Oscar Dias Corrêa, natural de Itaúna – Minas Gerais, fez-se destacado cidadão prestante. Bacharelou-se pela Faculdade de Direito da Universidade de Minas Gerais, agora UFMG. Foi deputado estadual em seu torrão natal; e ocupou cadeira de Deputado Federal em três legislaturas; Secretário de Educação, em seu Estado de origem, Ministro do Supremo Tribunal Federal e Ministro de Estado da Justiça. E, ainda, professor universitário em sua terra natalícia, bem como em Instituições de ensino superior no Rio de Janeiro e em Brasília. Integrou a Academia Mineira de Letras e a Academia Brasiliense de Letras. Demais disso, em 1989, como sucessor de Menotti Del Picchia, foi recebido na Academia Brasileira de Letras pelo Acadêmico Afonso Arinos de Melo Franco. O recém-chegado em seu discurso de posse mais de uma vez evocou versos de Dante.

A ABL publicou, em 1999, Meus Versos dos Outros / Traduções de poetas italianos por Oscar Dias Correa. Edição bilíngüe. Eis os poetas trasladados: Leopardi, Carducci, Petrarca, Ariosto, L. da Vinci, G. Cavalcanti, C. Angiolieri e Dante Alighieri. Deste último, vertidos para o nosso vernáculo cinco cantos de Inferno ( I, II, III, IV e V ) e o XXXIII do Paraíso. Esta advertência do tradutor está no livro:

Minha preocupação foi sempre, já o disse e repito, a da tradução tanto quanto possível literal, o que em geral não agrada aos grandes poetas-tradutores, que preocupados também, quando não principalmente, com a beleza literária da tradução, e a contribuição que lhe podem dar, afastam-se, muita vez, do original.

Em alguns casos essa preocupação leva-os a fazer obra nova, o que se não lhes desmerece o trabalho, transforma-os em novos autores do texto, no qual nem sempre se identifica o traduzido.

E acrescentou pouco adiante haver optado pela versão, tanto quanto possível literal, na mesma métrica, e até na mesma rima (quando possível), deixando que o leitor acompanhe o que se lê na tradução… para sentir a voz do Poeta , transposta, no mesmo tom, passo a passo, para a nossa língua, às vezes tão vizinha, noutras tão distante.

À memória de Oscar Dias Corrêa a reverente homenagem de quem escreve este texto. Aos caríssimos leitores, alguns tercetos do seu lavor dantiano:

INFERNO (Canto I)

1    Nel mezzo del cammin di nostra vita
mi ritrovai per una selva oscura,
che la diritta via era smarrita.

No meio do caminho desta vida,
enveredei por uma selva escura,
que a verdadeira via era perdida.

4   Ahi quanto a dir qual era è cosa dura
esta selva selvaggia e aspra e forte,
che nen pensier rinova la paura!

Quanto a dizer como era é coisa dura,
esta selva selvagem, rude e forte
que o só  pensar renova o medo e o apura!

7 Tant’è amara che poco  è più morte;
ma, per trattar del ben ch’io vi trovai,
dirò de l’altre cose ch’io v’ho scorte.

Tão amarga que pouco mais é a morte!
Mas, pra tratar do bem que ali achei,
direi, das outras coisas, o que importe.

10 Io non so bem ridir com ‘io v’ entrai
tant’era pien di sonno in su quel punto
Che La verace via abbandonai.

Não sei dizer bem como nela entrei,
tão sonolento estava aquele instante,
quando a via direira abandonei.

13 Ma poi ch’io fui AL pie d’um colle giunto,
là dove terminava quella Valle
che m’avea di paura Il cor compunto.

Mas, junto a uma coina, logo adiante,
onde pensava a selva terminada,
com o coração de medo trepidante,

16 guardai in alto, e vidi Le sue spalle
vestite già de ‘ raggi Del pianeta
che Mena dritto altrui per ogni calle.

Olhei para o alto, e a encosta alcantilada
vi vestida dos raios do planeta
que leva os outros certo, em toda estrada.

19 Allor fu La paura um poço queta

che nel lago Del cor m’era durata
la notte ch’io passai com tanta peèra.

Então se fez a angústia um pouco quieta,
que no lago do coração durara
a noite que passei, de tão inquieta.

Fontes de Alencar

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