Homenagens

De Estância a Brasília, por Anderson Braga Horta

‘Academia de Letras do Brasil, em 23 de setembro de 2009.

Ingressa hoje na Academia de Letras do Brasil, fundada por Almeida Fischer e, depois dele, capitaneada com simpatia e perseverante firmeza pelo poeta, contista e ensaísta José Geraldo Pires de Mello, o escritor Fontes de Alencar, que do Sergipe natal nos veio para abrilhantar, entre nós, tanto as letras jurídicas quanto as belas letras – e digo-o sabendo quão difícil pode ser (e efetivamente o é, neste caso) delimitar-lhes a interface. Sucede ao baiano Jorge Medauar, consagrado contista de Água Preta e A Procissão e os Porcos, na cadeira número XVI, de que é patrono o imenso poeta Jorge de Lima, de sua vizinha Alagoas, autor do sempre admirado soneto “O Acendedor de Lampiões”, do nunca esquecido poema “Essa Negra Fulô”, de A Túnica Inconsútil, de Mira-Celi, de Invenção de Orfeu. Honrado com a atribuição de recebê-lo, passo a retratar-lhe o luminoso perfil.

ORIGENS E LAÇOS FAMILIARES

Luiz Carlos Fontes de Alencar nasceu em berço letrado e entre letras cresceu. O pai, Clodoaldo, dos Alencares do Ceará, nascido em Quixadá, adolescente ainda se trasladou para Sergipe, terra que tem dado ao País vigoroso e variado contributo intelectual, de Tobias Barreto a Sílvio Romero, de João Ribeiro a Jackson de Figueiredo, de Hermes Fontes a Fausto Cardoso e a Santo Souza, este um nome atual e atuante, que se salienta no panorama poético do Estado. A mãe, Dona Eurydice Fontes de Alencar, era filha do Dr. Jessé de Andrade Fontes, destacado clínico sergipano. Casaram-se em Estância, e numerosa foi sua prole. Em Estância nasceu Luiz Carlos, em 31 de dezembro de 1933.

Casado com Dona Ilma Santos de Alencar, vieram a completar-lhes a família os filhos Luiz Carlos, Gisela, Moema e Daniela Santos de Alencar. A presença do grupo, que inclui ainda onze netos e uma bisneta, acrescenta os brilhos e o calor do universo doméstico à solenidade desta reunião.

O ESPELHO PATERNO

Quero deter-me um pouco na figura paterna, de quem, certamente, herdou nosso novel acadêmico a vocação para o Direito e o culto da Poesia. Advogado, jornalista, foi também escritor de prosa e verso, tendo deixado por publicar um romance, A Comarca. Poeta, foi cultor convicto do Parnaso, com dois volumes publicados: Archotes, de 1933, e Orós, de 1961. Expressa-lhe vigorosamente o neoparnasianismo este soneto do segundo livro:

 A PÉROLA

Na montra azul do mar, sobre o lençol de argila,
que a tintura do lodo há milênios encarde,
— desde que nasce a aurora e morre, em sangue, a tarde,
sob a equórea pressão a pérola cintila.

A onda, espúmea e revel, que ora avança e vacila,
no evasivo correr de alva Ninfa em alarde
e em cujos ombros nus o ouro dos astros arde,
não lhe rouba, sequer, a postura tranquila.

O estojo em que ela fulge o homem-do-mar presume
e, num mergulho audaz, vai procurá-la em torno
às rosas de coral dos jardins sem perfume.

Depois, rompendo o leque a mil sargaços, boia,
trá-la, fá-la viver presa a colo alvo e morno:
— joia fina a pompear no engaste de outra joia.

Com tal rigor de linguagem e segura arte poética, não admira que se dedicasse vitoriosamente à tradução, vertendo em vernáculo Os mais Belos Troféus de Heredia – título do livro que fez editar em Aracaju, em 1969. (Fazia, aliás, com desenvoltura também a operação contrária, transpondo ao francês poemas de nosso idioma.) Sucumbo à tentação de exemplificar-lhe essa faceta. Veja-se, neste soneto de Heredia, a nobreza de sua arte de traduzir:

A UMA CIDADE MORTA

Cartagena de Índias
1532–1583–1697

Pobre Cidade, outrora Imperatriz dos Mares!
Tem, hoje, o tubarão, em paz, as tuas ruínas
e a nuvem, que erra, alonga as sombras peregrinas
sobre o túmulo azul dos galeões singulares!

Desde Drake e a invasão dos ímpios militares
ingleses, estão ruindo os muros que dominas,
e, glorioso colar peróleo, a que te inclinas,
das balas de Pointis mostras crivos e algares.

Entre o brilhante céu e o mar, que é calmo, agora,
ao sol, que, no apogeu, monotoniza as cousas,
vês em sonho, ó Guerreira, esses Heróis de outrora!

E, em meio a esse torpor das mornas noites calmas,
ninando a Glória extinta, ó Cidade, repousas
sob o teu palmeiral, ao frêmito das palmas!

Minha empatia com a figura de Clodoaldo de Alencar, devida não só ao fato de ser genitor e inspirador do intelectual, do amigo que homenageamos nesta hora, mas de igual modo à sua paixão pela poesia –já como composição própria, já como recriação de produções alheias–, intensifica-se com uma descoberta que faço ao estudar-lhe a obra. Apesar de nunca nos termos visto, estivemos lado a lado, ao menos uma vez, – no espaço do livro: participamos, ambos, de uma coletânea organizada por Aparício Fernandes, Trovadores do Brasil (Freitas Bastos, Rio de Janeiro, 1966; eu estou no segundo volume, editado pela Minerva, também do Rio, em 1968).

Seja-me permitido, aqui, um parêntese multiacadêmico. Na trilha do pai, que foi membro da Academia Sergipana de Letras, Luiz Carlos ingressou também nessa agremiação de cultura, onde tem assento ao lado de um irmão, Hunald de Alencar, poeta de Tempo de Leste, Verde Silêncio da Semente, Uma Vez, em Olduvai…, romancista de Morte no Estuário. Laços de cultura confirmando e estreitando os laços de família.

A propósito de Hunald, não resisto à nova tentação de mencionar que em seu livro Ária Suspensa, de 2002, ilustrado por outro irmão, Leonardo Alencar, estou agraciado com um expressivo poema, “Escorpião”, alusivo a composição homônima de minha autoria. E não resisto, afinal, à tentação maior de, em causa própria, ler esses versos:

Tudo no escorpião é exato
equilíbrio de ternura e assalto.

A vida com os quintais
os sonhos com os entulhos:
tanto o bicho quanto o homem
(e este mais que o bicho)
se povoam nos escuros.

Sabe (sei) que não estou só:
ele, em guarda o ferrão
a tudo não circunscrito
ao silêncio do grito.
Eu me ponho no texto
das cinco vogais repensadas:

casulo-as nas consoantes
lentamente bordadas
e lentamente cultivo
tal copista medievo
a letra arbórea exubera
a luz da tocha proibida.
Alteio silentes defesas
(ele, com a presa entre parênteses).

O país em que habita
pode estar longe ou perto
o grito é uma questão de descuido.

Fica (ficamos) na espreita
de quem pisa, sonha, se deita.

O JURISTA, O HOMEM DE CULTURA

Fontes de Alencar seguiu as pegadas do pai no cultivo do Direito, a par de no amor às boas letras.

Bacharelado em 1958 pela Faculdade de Direito do Recife, doutorou-se pelo mesmo tradicional estabelecimento e prosseguiu estudando sempre, em cursos de Direito Agrário e Penal, de Segurança Nacional e Desenvolvimento, além de outros, destacadamente os que freqüentou na Escola Superior de Guerra e no Centro de Estudos Judiciários de Lisboa. Juiz de Direito em várias comarcas, membro do Tribunal Regional Eleitoral, guindou-se a desembargador, corregedor-geral e presidente do Tribunal de Justiça de seu Estado. Em 1989, foi nomeado ministro do Superior Tribunal de Justiça, onde exerceu funções como as de presidente da 4.ª Turma, coordenador-geral da Justiça Federal, integrante da Comissão de Jurisprudência e diretor da Revista de Jurisprudência. No exercício do magistério, foi professor adjunto do Departamento de Direito do CCSA da Universidade Federal de Sergipe, em cujos Conselhos Universitário e do Ensino e da Pesquisa participou, vice-reitor dessa casa de ensino superior e, finalmente, professor de Processo Penal na Universidade de Brasília. É professor honoris causa da Universidade de Cruz Alta, Rio Grande do Sul, sócio honorário do Instituto dos Advogados de São Paulo, membro do Instituto dos Advogados Brasileiros, do Rio de Janeiro, e do Instituto dos Advogados do Distrito Federal. Mereceu inúmeras distinções e comendas, cuja relação omitiremos, para não onerar em demasia este capítulo necessariamente relatorial de nossa oração. Mencione-se, todavia, em razão da afinidade acadêmica, a Medalha João Ribeiro, que lhe conferiu, em 1999, a Academia Brasileira de Letras. 

Além de reconhecido como jurista, é-o também na condição de homem de cultura lato sensu, fato que se comprova pela sua admissão ao Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe e ao seu congênere do Distrito Federal, às Academias Sergipana e Brasiliense de Letras e à ANE – Associação Nacional de Escritores, que, aliás, atualmente preside.

É natural que, dada a sua formação profissional, a maioria dos inúmeros trabalhos que tem publicado verse matéria jurídica ou histórico-jurídica, quadro em que inseriríamos os livros Liberdade: Teoria e Lutas (Brasília Jurídica, 2000) e História de uma Polêmica (Thesaurus Editora de Brasília, 2005).

Apresentando o primeiro, diz Josaphat Marinho:

Documentadamente, porque aponta as fontes de suas informações e assertivas, a obra demonstra como Rui foi constante a serviço da ordem jurídica. Vale, portanto, como base para correção de equívocos dos que negam ou criticam a grande produção, sem conhecê-la. Noutro momento, bem poderá o Autor, que tanto revela intimidade com o notável acervo, aditar aos estudos elaborados um capítulo pertinente ao pensamento social de Rui, com as particularidades em favor dos direitos do operário. O que está coordenado, porém, é suficientemente ilustrativo da fidelidade mantida pelo insuperável lutador aos ideais de Justiça.

Para maior unidade do trabalho, acresceu-lhe o Ministro Fontes de Alencar o discurso com que, na Academia Brasileira de Letras, em 1998, marcou os 50 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos e a participação que teve na sua feitura Austregésilo de Athayde, na solenidade de imortais comemorando seu centenário de nascimento.

Uniu, assim, a idéia universal de liberdade à prática da liberdade no Brasil. Como aplicador do direito, caldeou o conceito com a experiência, que é o modo objetivo de julgar as instituições, as leis e as obras dos grandes autores.

No suplemento Direito & Justiça, do Correio Braziliense, manifestou-se a respeito seu colega de Tribunal e de Academia Ministro Carlos Fernando Mathias de Souza, afirmando que “com o título Liberdade – Teoria e lutas, o ‘schollar’ e magistrado Luiz Carlos Fontes de Alencar oferece ao público trabalho de excelente valor”, para arrematar, ao fim de extensas e compreensivas considerações:

No caso de Liberdade – Teoria e lutas, o mínimo que se pode dizer é que Fontes de Alencar engrandeceu (e muito) um tema por si já excelente.

Quanto a História de uma Polêmica, vale transcrever, do prefácio de Vamireh Chacon:

Fontes de Alencar, jurista de sensibilidade histórica e política, descreve e analisa, com perspicácia de interpretação, os documentos por ele pesquisados sobre a polêmica trilateral, direta ente Rui Barbosa e Gumersindo Bessa, indiretamente a partir das decisões de Rio Branco na nem tão pacificamente resolvida Questão do Acre, onde guerrilheiros nordestinos estavam em combate sob a liderança do gaúcho Plácido de Castro, numa sintomática síntese de brasilidade do Norte ao Sul. Fontes de Alencar concentra-se nos antecedentes da Questão e na polêmica a respeito.

Sua competência nos territórios do Direito patenteia-se no livro-homenagem que lhe destinou, em 2005, o Superior Tribunal de Justiça, como volume 46 da série Coletânea de Julgados e Momentos Jurídicos dos Magistrados no TFR e STJ. No prefácio a essa coletânea –que, de resto, não se limita aos “momentos jurídicos”, uma vez que inclui discursos acadêmicos– diz, com propriedade, o Ministro Edson Vidigal:

Da Águia de Haia, a quem honrou com ensaios diversos e com a obra Liberdade: teoria e lutas, hauriu ele o saber jurídico e a intimidade com o Direito que o têm distinguido desde os primórdios de sua carreira; o hábito do estudo perquiridor; a segurança na defesa de teses relevantes, evidenciada em seus votos e na vasta produção literária.

A esse perfil, somam-se boa dose de sensibilidade ante as grandes questões sociais e profundo senso de humanismo, virtudes plasmadas no trabalho abnegado, no trabalho diuturno voltado para os anseios dos jurisdicionados, para a consecução da paz social, concretizada tão-só quando os homens são verdadeiramente livres ….

Nesse campo, o do Direito, seus ensaios abraçam desde o instituto do habeas corpus até o Tratado de Petrópolis, passando por questões processuais, fiscais, etc. De suas apresentações de obras alheias lembramos a que preparou para O Pau-Brasil na História Nacional, de Bernardino José de Souza (CEJ, edição fac-similar, Brasília, 1999), o prefácio a Menores e Loucos em Direito Criminal, de Tobias Barreto (Senado Federal, 2003; 2.ª ed.), e “Como se Prefácio Fora”, em Breve Passeio pela História do Direito Brasileiro, de Carlos Fernando Mathias de Souza (CJF, Brasília, 1999). Mas tem também, decerto, escritos de outra natureza, nomeadamente de feição literária, como “Os Ratos” (Revista de Aracaju, 1955), “Kalevala” (Jornal de Letras, Rio de Janeiro, março de 2001), “Água de Camaragibe” (Gazeta de Alagoas, Maceió, outubro de 2002) e seus discursos de posse nas três academias a que pertence – incluindo, naturalmente, o que acaba de proferir, para gáudio e ilustração nossa. Nem se esqueça a fecundidade de sua ação cultural, desde a juventude em Aracaju, como partícipe na fundação da Sociedade de Artes e Letras de Sergipe (consoante o testemunho de Ariosvaldo Figueiredo em História Política de Sergipe), o magistério e o exercício da vice-reitoria da Universidade Federal de Sergipe (que Antônio Garcia Filho realça, em Um Pensamento na Praça, com “o elogio do seu comportamento pessoal, nos deveres das Disciplinas que ministra, cuidando das aulas, sempre magnas, como o jardineiro das suas plantas”) até o sereno, seguro e democrático desempenho na presidência da ANE.

O HOMEM DE LETRAS

Cabe aqui, entretanto, uma observação fundamental: não se pode separar, nas páginas da lavra fontes-alencariana, o histórico, o jurídico etc. do viés literário. Mesmo quando não tenha por objeto imediato a literatura stricto sensu, literatura faz, e boa literatura, mercê da linguagem acurada, do estilo rico, da cultura transbordante, da elegância de elocução.

De sua competência lingüística diz bem a citação que se lê, entre os agradecimentos pela colaboração, no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, edição de 1998. Edson Vidigal, no prefácio há pouco citado, vê “dardejar ecos do grande Rui, quer no estilo, quer na percuciência das idéias, quer, ainda, na exaltação da língua pátria, artisticamente trabalhada em seus escritos”. Mathias de Souza, também acima citado, transcreve, no discurso com que recebe na Academia Brasiliense de Letras o ilustre sergipense (como este mesmo às vezes prefere chamar-se), o agradecimento de Oscar Dias Correia à oferta de Liberdade: Teoria e Lutas, donde colhemos:

…. em concisos estudos sobre passos admiráveis do Mestre, o discípulo – que muito dele aprendeu com Clodoaldo, o pai – dá aos temas a vida que o estilo direto, enxuto e terso lhes imprime, renovando e revitalizando apreciações e conceitos.

Da mesma fonte destaco a confissão do ilustre Desembargador José Renato Nalini (do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo) sobre sua leitura dessa obra:

Não pude me deter, tão atraente o encadeamento de temas, tão agradável a linguagem, tão límpida a exposição do pensamento.

Para dar fecho a este passo, vale voltar a Josaphat Marinho, que não se esquece de assinalar, no prefácio referido,

…. o cuidado no estilo, numa travessia histórica em que a língua portuguesa não vem merecendo o justo respeito.

Com efeito, a linguagem de Luiz Carlos Fontes de Alencar é escorreita, cuidada e elegante. Bem no-lo demonstra sua oração-ensaio Florestas e Diamantes (Elogio de Herberto Sales), desde sua introdução de ressonâncias poéticas, em que se patenteia já o seu humanismo, a sua vocação de servir, e em que mais do que insinuada fica a sua perfeita adaptação e o seu amor a estas planálticas terras:

Na banda do mar nasci, em Sergipe, na cidade de Estância, outrora Vila Constitucional da Estância, berço da Imprensa na Província.

Acolá abracei a Magistratura e o Magistério. Sempre trabalhei pensando em Sergipe e buscando servir a sua gente – a minha gente. Fiz o quanto Deus me permitiu. Bondadosos ventos trouxeram-me ao Planalto Central.

Ao evocar, nesse discurso, a figura helênica de Coelho Neto, patrono ilustre da cadeira que ocupa em casa de cultura congênere à nossa, presta-lhe homenagem não apenas referencial, senão ainda essencial, mercê de uma prosa requintada, de rico vocabulário, que se diria elaborada adrede e especialmente para esse preito ao venerando autor de Rei Negro, não fôra ela, sabidamente, consubstanciada na pena de Luiz Carlos. E na rememoração e estudo que em seguida faz da vida e da obra do autor de Cascalho, seu antecessor naquela casa, traça um vasto e abrangente quadro, em que o grande romancista, nosso saudoso Herberto Sales, recebe simpático enfoque e o reconhecimento sem dúvida merecido.

Ao impulso que me levaria a oferecer à degustação dos distintos amigos, neste momento a um só tempo solene e festivo, trechos diversos da lavra do escritor Fontes de Alencar contrapõe-se, imperiosa, a observação de que, disjecti membra, estaríamos talvez pulverizando-lhe o perfil. Assim, preferirei concentrar-me em apenas um texto mais, e para tanto escolho um fragmento de sua palestra sobre “A Federação Brasileira e os Procedimentos em Matéria Processual” (proferida em 18.10.2000, no Tribunal de Alçada Criminal do Estado de São Paulo, e recolhida na Revista CEJ, n.º 13/2001), que nos oferece a vantagem de, num único olhar, vislumbrarmos o publicista, o jurista, o estilista, o seguidor de Rui, o historiador, o sergipano entranhado, o brasileiro amante de sua terra e de sua gente:

…. não há examinar a Federação Brasileira à luz da Federação Norte-Americana. Não estou bloqueando eventual estudo de direito comparado entre a Federação Brasileira e a Norte-Americana. O que estou tentando dizer é que cada povo e o direito de cada povo têm as suas particularidades, diria mesmo, as suas idiossincrasias, porque nenhum povo é igual a outro. Nenhum povo é melhor do que outro. Na verdade, cada povo é um, com as suas virtudes, os seus contextos históricos.

Então, acho razoável e, mais do que razoável, preciso buscar no passado as raízes da Federação Brasileira para que possa avançar no tópico a que me propus.

Ora, quem se dispuser a fazer esse estudo, com esse retrospecto, aqui mesmo, em São Paulo, encontrará nos primeiros tempos aquele movimento que pretendeu coroar rei Amador Bueno. Pouco depois, os Paulistas e seus descendentes, que avançaram pelos sertões, iriam ser agentes daquele episódio que ficou conhecido na nossa história como a Guerra dos Emboabas. Emboabas eram os Portugueses. Daquela Guerra dos Emboabas, resultou a autonomia da parcela do Brasil Central, que é hoje o Estado de Minas Gerais.

Tendo sido criada em 1709 a Capitania de São Paulo e Minas de Ouro, pouco depois em 1720 era criada a de Minas Gerais, em razão dos reclamos dos descendentes de Paulistas que ali se haviam instalado. Paralelamente a isto, no Nordeste, de cunho nativista, eclode a Guerra dos Mascates, realçando-se a figura de Bernardo Vieira de Melo, que sucumbiria nas masmorras da prisão do Limoeiro, em Lisboa, lá em Portugal.

Ora, dir-se-á estou trazendo à tona fatos remotos, do começo do século XVIII; então os deixo nos escaninhos do tempo, e avanço.

Chego ao movimento da Independência, à abdicação de Pedro I e à Regência. Nesse período da Regência, o turbilhão da vida nacional foi intenso. Lembram-se os que me ouvem dos registros da Sabinada – na Bahia, e da Cabanagem – lá no Pará; fatos que marcam na nossa história a idéia da autonomia. E por que não mencionar a Revolução de 1817, no Nordeste, com a República do Crato, no Ceará, e ao depois a Confederação do Equador de 1824, também ponto fulcral do movimento em busca da autonomia local?

É interessante que em todos esses movimentos no arco que vai do começo do século XVIII até a primeira metade do século XIX, conquanto buscassem os revoltosos autonomia local, tinham um ponto de ligação: a não separação do Brasil, a preservação da unidade nacional brasileira.

Pois bem, a Federação Brasileira não é fruto de simples elucubração mental. A Federação Brasileira tem bases na história do povo brasileiro. Somente quem não a conhece pode imaginar que a Federação Brasileira resultou de uma mera disquisição acadêmica. Não. A Federação Brasileira resultou de todos estes anseios de autonomia localizados, sem prejuízo da unidade nacional.

E se lhes digo da Federação, necessariamente hei de mencionar a figura de Rui Barbosa. Rui, pelos idos de 1870, das janelas do Hotel de França, que aqui em São Paulo existia, enfrentando os poderosos do tempo, recebia os Paulistas que retornavam da Guerra do Paraguai, insistindo na abolição da escravatura. Tentaram silenciá-lo, mas, repetidamente clamava ele pela liberdade, e o fazia – é significativo isso, – ao receber os Paulistas que voltavam da Guerra do Paraguai. Esse mesmo Rui captava no alvorotamento da vida nacional a necessidade da Federação, e proclamava que a Federação viria, com a Coroa ou sem a Coroa. E teve ele, o liberal, – que inaugurara a sua vida política aqui, saudando, em 1868, a figura de José Bonifácio, Professor do Largo de São Francisco, – teve ele, Rui, a visão de que um País da dimensão territorial do Brasil, com a diversidade regional pronunciada, não poderia seguir o seu destino de Grandeza sem a autonomia das províncias. Por esse tempo – para fazer uma ligação com a minha querida Faculdade do Recife, – lembro que lá no Recife, Tobias Barreto, em saudação a outros soldados brasileiros, recitava:

“Quando se sente bater
no peito heróica pancada
deixa-se a folha dobrada
enquanto se vai morrer.”

Esses versos estão gravados ali no Largo de São Francisco, desde o tempo em que os Paulistas fizeram o seu grito contra a ditadura.

Antes haviam promovido a Revolução Constitucionalista de 1932. São Paulo fez o 9 de julho indo buscar, nas raízes nacionais, a autonomia da região.

Diante disso, não há que duvidar das raízes históricas da Federação Brasileira.

Quase chegando ao fim de minha oração, resta-me apregoar a notícia de mais um livro do novo acadêmico, já no prelo da Thesaurus. O prefaciador, que é nosso presidente, o poeta José Geraldo Pires de Mello, assim o anuncia:

Fontes de Alencar – dublê de jurista e homem de letras – apresenta-nos Anotações de Poesia no Centenário da Revista Americana (1909-1919), em que se manifesta sobre textos poéticos publicados pelo mencionado veículo de divulgação, durante seus quase dez anos de existência, a partir do Rio de Janeiro.       

A Revista chegou a ser apresentada – como publicação internacional fundada em 1909 pelo Dr. Araújo Jorge sob o patrocínio do Barão do Rio Branco, e divulgou principalmente autores sul-americanos, além de europeus, em menor número. ….

Dos autores divulgados pela Revista Americana, Fontes de Alencar pronunciou-se sobre os vinte e um vindos a lume nas folhas do Jornal da ANE, dos quais três europeus – dois portugueses e um francês – e dezoito sul-americanos – um nicaragüense, um peruano, dois chilenos, um colombiano, e treze brasileiros.

Sinto-me honrado em participar desse empreendimento literário, como tradutor de alguns poemas, acompanhando José Jeronymo Rivera e José Santiago Naud, notáveis protagonistas da cena cultural brasiliense.

Termina José Geraldo, estimulando-nos a natural expectativa:

O mais é entregar-se à leitura do livro, e deleitar-se com a seleção dos excelentes poemas nele inseridos, com as profícuas anotações de Fontes de Alencar, e os oportunos comentários com que enriquece a obra.

Senhoras, Senhores:

Queda o discurso aquém de sua alta finalidade, e breve há de parecer se cotejado aos extensos méritos de nosso recém-empossado acadêmico. Mas creio poder alardear-lhe uma virtude, sem incorrer no anátema do provérbio segundo o qual “elogio em boca própria é vitupério”: é feito de coração.

Em meu nome e no de toda a confraria a que pertencemos, digo, em conclusão:

Bem-vindo, Luiz Carlos Fontes de Alencar, ao seio da Academia de Letras do Brasil.’

Anderson Braga Horta

 

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