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Machado de Assis e Adam Mickiewicz

Quase cento e cinqüenta anos há que o Diário do Rio de Janeiro publicou de Machado de Assis O ideal do crítico, artigo hoje inserto em O jornal e o livro, coletânea de textos seus editada por Companhia das Letras, de São Paulo, em ano recém-findo. O futuro autor de obras fundamentais da literatura brasileira traçava ali o panorama da crítica nacional: O crítico atualmente aceito não prima pela ciência literária; creio até que uma das condições para desempenhar tão curioso papel é despreocupar-se de todas as questões que entendem com o domínio da imaginação. Outra, entretanto, deve ser a marcha do crítico; longe de resumir em duas linhas – cujas frases já o tipógrafo as tem feitas – o julgamento de uma obra, cumpre-lhe meditar profundamente sobre ela, procurar-lhe o sentido íntimo, aplicar-lhe as leis poéticas, ver enfim até que ponto a imaginação e a verdade conferenciaram para aquela produção.

Chrysalidas de Machado de Assis data de 1864. No último ano do século passado a editora Crisálida, de Belo Horizonte, produziu 2ª edição sua, incluídas peças outras, entre as quais Polônia, como o autor fizera em Poesias Completas, de 1901. A mencionada publicação belo-horizontina reproduz do posfácio respectivo: O meu livro é esse pouco que tu [Dr. Caetano Filgueiras, o prefaciador] caracterizaste tão bem atribuindo os meus versos a um desejo secreto de expansão; não curo de escolas ou teorias; no culto das musas não sou um sacerdote, sou um fiel obscuro da vasta multidão dos fiéis. Tal sou eu, tal deve ser apreciado o meu livro; nem mais, nem menos.Nada obstante, Polônia, pelo instante de seu aparecimento – 1863, segundo a edição crítica de 1977 de (Civilização Brasileira/MEC) –, tema de que cuida e expressividade hiperbólica, situa-se na ambiência huguesca do nosso romantismo. Ademais, de Mickiewicz , do Livro da Nação Polaca, trazida foi sua epígrafe:

E ao terceiro dia a alma deve voltar ao corpo, e a nação ressuscitará.  

Castro Alves também utilizaria versos do vate polônio para epigrafar poesias suas: Sub Tegmine Fagi, de 1867, e A Mãe do Cativo, do ano seguinte. Há outro liame entre o brasileiro e o bardo polônico: Alpujarra, se acha no livro de MA. Em epílogo assinalou, a propósito o autor de Crisálidas: Este canto é extraído de um poema do poeta Mickiewicz denominado Conrado Wallenrod. Não sei como corresponderá ao original, eu servi-me da tradução francesa do polaco Christiano Ostrowski.Adam Mickiewicz (1798-1855) é o mais proeminente personagem do romantismo polonês.

Em Páginas Brasileiras sobre a Polônia (Rio de Janeiro: Livraria Freitas Bastos-1942) Tadeu Skowronski divulgou aquele poema machadiano. Agora, versos de

POLÔNIA

Como aurora de um dia desejado
Clarão suave o horizonte inunda
É talvez amanhã. A noite amarga; 
Como que chega ao termo; e o sol dos livres
Cansado de te ouvir o inútil pranto, 
Alfim ressurge no dourado Oriente. 

Eras livre, – tão livre como as águas
Do teu formoso, celebrado rio;
A coroa dos tempos
Cingia-te a cabeça veneranda;
E a desvelada mãe, a irmã cuidadosa,
A santa liberdade,
Como junto de um berço precioso,
À porta dos teus lares vigiava.
                               
Eras feliz demais, demais formosa;
A sanhuda cobiça dos tiranos
Veio enlutar teus venturosos dias…
Infeliz! A medrosa liberdade
Em face dos canhões  espavorida
Aos reis abandonou teu chão sagrado;
Sobre ti, moribunda,
Viste cair os duros opressores:

…………………………………………………….

Presa uma vez da ira dos tiranos,
Os  membros retalhou-te
Dos senhores a esplêndida cobiça;
Em proveito dos reis a terra livre
Foi repartida, e os filhos teus – escravos – 
Viram descer um véu de luto à pátria
E apagar-se na história a glória tua.
    
A glória, não! – É glória o cativeiro,
Quando a cativa, como tu, não perde
A aliança de Deus, a fé que alenta
E essa união universal e muda
Que faz comuns a dor, o ódio, a esperança.
……………………………………………

Então surgiu Kosciusko;
Pela mão do Senhor vinha tocado;
A fé no coração, a espada em punho,
E na ponta da espada a torva morte,
Chamou aos campos a nação caída,
De novo entre o direito e a força bruta
Empenhou-se o duelo atroz e infausto
Que a triste humanidade
Inda verá por séculos futuros.
…………………………………………….             

No seio do infinito.
E quando a força do feroz cossaco
À casa do Senhor ia buscar-te,
Era ainda rezando
Que te arrastavas pelo chão da igreja.
Pobre nação! – é longo o teu martírio;
A tua dor pede vingança e termo;
Muito hás vertido em lágrimas e sangue;
É propícia esta hora. O sol dos livres
Como que surge no dourado Oriente.
Não ama a liberdade
Quem não chora contigo as dores tuas;
E não pede, e não ama, e não deseja
Tua ressurreição, finada heróica!

Fontes de Alencar

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